Randômico


Sobre elefantes

Alicia nunca gostou de elefantes. Sempre que via um, tratava de explicar minuciosamente os inúmeros motivos pelos quais não gostava de tê-los por perto, sequer de vê-los de longe. Seus amigos e parentes que já fizeram um safári lhe falavam que os elefantes podem ser grandes e feios, mas que sem eles o safári não acontece. Outra coisa que diziam era que falar tanto dos bichos só os tornavam mais insuportáveis. Alicia prosseguia listando seus defeitos. Até que, um dia, ela percebeu que, se deixasse os elefantes para lá e simplesmente parasse de prestar atenção em seus atributos odiáveis, eles deixariam de aborrecê-la. E assim fez.

Eles não deixaram de irritá-la, porém, ela, persistente, não desistiu de seu propósito: deixar os elefantes seguirem seu rumo sem serem julgados a todo momento. Uns dias ela conseguiu, outros, não resistiu, mas perseverou. Alicia ainda não gosta de elefantes. E não sabe disfarçar seu desgosto. Mas aprendeu que uma maneira de entendê-los melhor seria colecionando algumas miniaturas. Pequenas, inofensivas, não lembravam nem de longe aqueles monstros cinzas e enrugados dos quais ela sentia tanta repulsa. Tinha de várias cores. Azul, roxo, branco... e quando sentia aquela repulsa inflamada, tratava de guardá-los numa lata de ferro. Pelo menos até conseguir voltar a olhar para eles novamente com curiosidade e bom humor, não com raiva. Afinal, num safári, é preciso olhar e conviver, por mais rápido que seja, com elefantes. E ela queria muito fazer um safári.

Alicia queria que seu safári fosse agradável e queria poder tirar fotos com os elefantes ao fundo, sem sentir nojo. Na verdade, toda a sua ojeriza a elefantes vinha do fato de que, na verdade, o que ela mais queria era montar um. Dominá-lo. Esse ser imenso e pesado que descobre água só sentindo a terra sob seus pés (não confirmo essa informação. Lembro de ter visto no Fantástico uma vez, ou seja, fica para reflexão...). Ela queria mostrar que era capaz. Como a Kesha no clipe “Your Love is my Drug” (minhas referências, além de continuarem ruins, são velhas...).

Ela nunca conseguiu. Não satisfatoriamente, como quem realmente tem controle da situação, pois, nas poucas tentativas que fez, se desequilibrou e ficou com muito medo de cair, o que a fazia descer imediatamente. Ou seja, não ficava em cima do elefante por muito tempo. Em um gesto de desapego (desprendimento/frustração/decepção), desistiu de tentar. Desistiu de conseguir. Continuou odiando elefantes, mas agora prefere, simplesmente, ignorá-los. Jogou fora os que guardava, parou de colecioná-los, parou de procurá-los onde não estão a venda e, enfim, fez o seu safári. Nenhum elefante saiu nas fotos.



Escrito por Joceline Gomes às 16h05
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