Randômico


Pesquisas linguísticas e as curvas de Brasília

A ciência não é isenta e eu sei onde moro

Uma das minhas professoras da pós graduação fez mestrado em lingüística e resolveu escrever um dicionário sobre os endereços de Brasília. São siglas que nem os próprios brasilienses sabem daonde vieram ou o que significam (me incluo). Por exemplo: SHCGN – Setor de Habitações Coletivas Geminadas Norte. Chique néam? Então, foi sobre isso a aula de hoje. Não importa sobre o que é a minha pós. A aula foi muito interessante, muitas revelações históricas e curiosidades que eu nunca soube na escola. O “avião” de Brasília não tem nada a ver com um avião. Era uma cruz. Simétrica. Maaaas se a cidade fosse simétrica, reta, o escoamento da água da chuva seria muito ruim e poderia causar alagamentos. Então fizeram aquela inclinada charmosa que as pessoas começaram a chamar de avião, e que o Congresso seria a cabeça do piloto, asa sul e norte, e o rabo do avião e uatchatcha... lendas urbanas na cidade da Legião Urbana.

Sobre a palavra “Brasília” entendo a confusão quando digo que não moro em Brasília, moro em Samambaia. Segundo a professora: Brasília pode ser usada para dois significados – Região Administrativa número I do Distrito Federal oooooou Brasília como o próprio Distrito Federal, não importa qual cidade satélite você esteja. (já expliquei sobre cidade satélite em algum ponto desse texto, clique aqui pra lê-lo).

Brasília é uma cidade tão singular que nem a educação formal dá conta de explicar direito sua origem e estrutura. Uma das maiores confusões feitas na escola e entre os moradores é sobre, afinal, o que é e o que constitui o Plano Piloto. Uma luz vai brilhar agora: Plano Piloto não é só Asa Sul e Asa Norte. Incluem-se também: Candangolândia, Cruzeiro, Setor Militar Urbano, Octogonal, Sudoeste e o super bairro de apartamentos de um milhão de reais, o Noroeste. Sim, eu descobri isso hoje. Sim, eu nasci e cresci em Brasília.

Mas isso não foi a coisa que mais me chocou na aula. Foram outras duas coisas. Vou numerá-las e discuti-las em tópicos pra não me perder nas minhas divagações (que são muitas).

1)      Saindo da Rodoviária do Plano Piloto (ou chegando) de ônibus, você vai passar por uma curva um tanto quanto grande, que dá pra ver toda a Esplanada dos Ministérios, inclusive o Congresso. “A poesia que Lúcio Costa usa pra explicar essa curva é fascinante: é para que as pessoas que estiverem chegando ou saindo de Brasília [cidade] deem uma olhadinha no poder.” Gente, não agüentei! Tive que rir e fazer um comentário: “Olhadinha no poder?? Ah sim, dá uma olhadinha e pode fazer a curva de volta pra sua terra, seu pobre!” O humor é realmente a ferramenta mais útil para se fazer uma crítica social. Ninguém ri porque é engraçado, mas porque, infelizmente, é verdade. Quem faz aquela curva está entrando ou saindo da rodoviária: lugar mais podre, fedido e com concentração de mendigos e usuários de drogas por metro quadrado (vide fantástico: crack chega a Brasília). Sem contar que quem não tem carro tem que esperar às vezes por horas pra pegar um ônibus lotado, quebrado, sujo e velho. Mas quando você estiver chegando ou saindo, você pode dar uma “olhadinha no poder” e ficar feliz de morar em Brasília. Faça-me o favor, né? Lúcio Costa deve ter tido a melhor das intenções, com certeza. Ele não esperava que Brasília tivesse em dez anos a quantidade de pessoas prevista para 50. Muitos carros, poucas calçadas... Brasília não é cidade para passear a pé. Dizem inclusive que o brasiliense se divide em cabeça, tronco, membros e rodas. As minhas são de um ônibus sempre lotado, quebrado... o resto vocês sabem.

2)      O Setor Habitacional Coletivo Área Octogonal Sul (SHCAOS – adorei essa sigla!), conhecido por aqui apenas como Octogonal, “apresenta uma redução na sigla, que chega a ser AOS para alguns moradores. Mesmo com essa redução na sigla, e no modo de falar, pronunciando apenas uma das palavras formadoras da sigla, ninguém faz a redução extrema na sigla a ponto de falar apenas a letra O de Octogonal. Ninguém fala: Moro no Setor O, até porque, aqui no DF, Setor O já denomina outro lugar, que fica na Ceilândia”, disse a professora. No slide que ela apresentou, lia-se: “(...) Setor O, na Ceilândia, que muitos moradores já dizem ‘moro no O’”. Tive que perguntar: “Professora, a senhora realmente já encontra esse registro oral??? ‘Moro no O’??” Ela: “Sim”. Eu: “Professora, desculpa, mas eu sinceramente nunca ouvi nada parecido. Aqui no Plano Piloto é comum as pessoas dizerem: ‘Moro no M’, ‘Moro no J’, porque são os blocos, mas quem mora no Setor O diz ‘Setor O’ mesmo. A mesma coisa é quem mora na M Norte, que diz ‘moro na M Norte’, porque ‘moro no M’ é bloco M, no Plano. Então a professora replicou, com base na sua pesquisa: “Não, mas as pessoas já estão dizendo assim mesmo. Eu ouvi moradores de Samambaia dizerem isso”. Ahhh, para né, professora?? O SETOR O É NA CEILÂNDIA!!!!! (interrompo o texto para ficar muito nervosa, sem saber o que escrever a respeito)

Ah sim, esqueci de esclarecer o que é Setor O e M Norte. São simplesmente os bairros mais estigmatizados do Distrito Federal inteiro. Na verdade, segundo o universo paralelo que existe após entrar no Centro Universitário onde faço essa pós, qualquer lugar que não seja Plano Piloto é estigmatizado. “Nossa, Cruzeiro é Plano Piloto?? Não sabia...” Tem que desenhar...

A ciência não é isenta de nada, como diria uma outra professora. Essa da pesquisa de Brasília ficou tão obsecada em Brasília (onde ela mora, inclusive) que sequer sabe onde fica o Setor O, mesmo tendo “ouvido e entrevistado pessoas que falam assim”.

Brasília sempre teve esse abismo social, esse cordão sanitário dividindo o Plano Piloto do resto. Resto mesmo. Que não merece transporte público de qualidade, sequer respeito ao local onde moram. Outra me vem com uma: em Samambaia já tem superquadra (lugar onde tem tudo, como se fosse uma mini-cidade). Tive que comentar: “eu moro em Samambaia há uns 15 anos. Não existe superquadra lá”. Querem falar do lugar onde você vive com mais propriedade que você! Eu sei onde moro, sei daonde vim, sei pra onde eu vou, e não é pesquisa nenhuma que vai me dizer como os meus familiares falam, como a minha cidade é.

Samambaia não é favela, Setor O não é tão violento quanto pintam, M Norte não é cidade dormitório. Todas são cidades muito independentes e tranqüilas para se viver, mas que, quem vive no Plano Piloto, sequer sabe onde ficam.

Eu descobri hoje as cidades que compõem o Plano Piloto. Que tal vocês, que moram lá, descobrirem quais cidades compõem o restante do Distrito Federal?

 

P.S: Parabéns a Brasília (cidade e DF), que consegue, mesmo com toda essa desigualdade, ser um ótimo lugar para se viver.



Escrito por Joceline Gomes às 18h57
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