Randômico


O marido rico e o discurso feminista

Fila da Marisa, algum dia da semana passada, alguma hora perto do almoço [essas informações realmente não são importantes, logo, não ligue para elas]. Estou lá,  com a fatura de uma compra parcelada em três vezes na mão, esperando ser atendida, quando chega um casal atrás de mim. Pela visão panorâmica (aquela que quase não tenho, pois sou míope) percebo que se trata de um senhor bem idoso (cabelos bem grisalhos e uma barriguinha de muitos anos de chopp) e uma mulher jovem, loira, alta, magra e bem vestida. Vocês podem pensar que eu fiz um filtro devido à minha formação feminista etc, mas tento reproduzir esse momento com o máximo de fidedignidade possível. Nunca usei a palavra “fidedignidade”,  daí vocês já veem que estou falando sério. Se eu não tivesse ouvido tudo que escreverei, eu também não acreditaria. Na verdade, até acreditaria. Basta a seguinte informação: em um shopping de Brasília... Segue diálogo:

Senhorzinho: Ai amorzinho que bom que eu vim me encontrar com você hoje, né? Se não, você não poderia comprar isso aí. (isso aí = par de meias calças que a jovem segurava e virava e voltava e virava)

Loira: é, que bom (virando a meia calça todo o tempo, sem contato visual com o senhorzinho). Sabe o que eu estava pensando? (agora faz contato visual) Por que você não volta a me dar um dinheiro todo mês, como a gente fazia antes? Assim eu não preciso te chamar toda vez que eu quiser comprar alguma coisa, né?

Senhorzinho: Porque não funcionou, amorzinho. Lembra, que eu te entregava um dinheiro por mês e ele sempre acabava em uma semana, e você me ligava (começa a rir enquanto fala) dizendo: “amor, achei um sapato lindo aqui, estourou o limite, você completa pra mim?” Lembra?

Loira: ah, é verdade.

[prefiro não comentar]

Nesse momento chega uma senhora e fica no final da fila (depois do casal “novela das 9”), mas logo libera um caixa e ela corre lá, apresentando carteirinha de maior de 65 anos. A próxima da fila deveria ser eu, mas quem ficou emputecida com essa história foi a loira vulgo “amorzinho”.

Amorzinho diz: Agora é assim é? Chama a próxima e quem está no fim da fila vai ser atendida antes de todo mundo????!!!!

Senhorzinho sem apelido diz: Calma, amorzinho, ela deve ter algum problema.

“Problema” é ótima... Enfim, me chamaram. Mas a essa altura eu já estava rindo comigo mesma enquanto olhava pra eles com aquela cara de “aff”. Então, eles foram chamados. Mas ela é como o Datena, não cansa de reclamar.

Amorzinho diz: Vem cá [desconfie de quem pede sua atenção desta maneira, principalmente quando seguido por “minha filha”], quem chega agora e tá no final da fila, é atendido na frente de todo mundo??!!

Caixa diz: [cara de “dooolll”] Ela era prioridade, senhora, apresentou até a carteirinha.

Amorzinho diz: Ah ta.

Vontade de dizer: vishhhhh, vishhhh. Mas, como eu já saí da oitava série há... há um bom tempo, preferi continuar pagando minhas contas (ai que frase adultinha). Como o casal Manoel Carlos pagou “em cash”, o processo foi mais rápido e eles (finalmente) foram embora, com o senhorzinho repetindo: “vamos almoçar juntos, amorzinho? Hein? Vamos almoçar?”. Nisso, as duas caixas se entreolharam e soltaram aquele sorriso “ai ai viu”, que eu retribuí prontamente para a caixa que estava me atendendo.

São situações assim que me fazem acreditar no poder do feminismo. Aí você me diz: ahn, como assim? A idéia do feminismo não é que as mulheres sejam independentes financeiramente etc? Sim, a intenção já foi essa, mas o principal conceito do feminismo é que a mulher não deve ser refém de nada, e deve ter seu poder de escolha respeitado para qualquer situação. “Amorzinho” optou por ser bancada pelo marido rico. Eu opto por estudar, trabalhar, e ter meu próprio dinheiro. Outras optam por casar antes dos 20 e fazer faculdade depois. Outras optam pela carreira política e pelo engajamento em movimentos sociais. Outras optam pelo aborto ou pela concepção. O importante é que: todas optam.

Ouvi esses dias de uma mulher que “o discurso do feminismo é perigoso”. É perigoso para quem?? “É radical demais, é combativo demais, acho que tudo tem nuance”. Sim, e quem discordou? Afirmar que a mulher tem poder de escolha é radical demais? Afirmar que “embaixatriz” é a esposa do embaixador, mas que não existe termo semelhante no masculino é radical ou fato? Afirmar que enquanto as “donas de casa” limpam, cozinham, passam e cuidam das crianças o “dono de casa” apenas detém a propriedade de uma moradia é radical ou fato? Que não existe “primeiro-cavalheiro” porque não se espera que uma mulher galgue o posto de presidente é radical ou fato?

A língua não é preconceituosa. As pessoas de uma determinada cultura são. E esse preconceito passa para a língua. A ausência desses termos no masculino me inquietam profundamente, e não, não acho meu discurso perigoso. Perigoso, para mim, é achar que ao falar isso você está sendo “liberal” ou “moderninha”. Perigoso, para mim, é achar que esse pensamento é teu, é original, quando na verdade existe toda uma estrutura te preparando para pensar assim. Perigoso, para mim, é não reconhecer que hoje você tem o direito de estar divorciada, de trabalhar, de estudar numa universidade porque essas “radicais” disseram que as mulheres deveriam ter direito a isso um dia. Perigoso, para mim, é acreditar que o discurso feminista é perigoso, enquanto milhares de mulheres são assassinadas, massacradas, mutiladas, humilhadas pelo simples fato de ser mulher. Sorte que o Brasil não tem isso. Mas ainda temos muito o que melhorar.

As conquistas feministas foram grandes, mas só o fato do discurso do “perigoso” permanecer por aí já demonstra o quão deturpada está a imagem do movimento feminista na sociedade. É isso que os detentores do poder querem: que tudo permaneça exatamente como está. E você, é isso que você deseja? O mundo está bom como está? Se eu ganhasse o quanto essa mulher ganha, se eu trabalhasse as poucas horas que essa mulher trabalha, se eu trocasse de carro a cada semestre como ela troca, talvez, pra mim, as coisas estariam bem até demais. Perigoso esse pensamento, não?



Escrito por Joceline Gomes às 17h56
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