Randômico


Diário de bordo 2

O casamento foi há três anos. Já terminou, inclusive. Mas pra quem pensa que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar eu respondo: um não, mas dois podem cair. E na mesma igreja, com os mesmos problemas no flash.

 

Saí do trabalho, peguei o ônibus errado, peguei o ônibus certo e desci na parada que a “moça que pega o ônibus todo dia desce”. Dessa vez começou mais tarde porque eu tinha que trabalhar, mas começou. E terminou mais ou menos da mesma maneira que terminou da última vez. O casamento já acabou, mas os filhos crescem, e ainda querem festas de quinze anos. Ela é minha prima, não minha irmã. Se fosse irmã eu iria dar um jeito de convencê-la do contrário. Mas enfim, o processo já começou e eu fui convidada a participar do resultado. Con-vi-da-da. Honra né? Não deve ser como da última vez. Então vambora.

Chegando lá vejo uma menina que vi há três anos, pequena e magrinha, já grandona, peitudona, num vestido branco de babados e apontando pra um bebê: “olha, é minha filhota”. “Ah, sim, oi tudo bem?” Cumprimenta antes, né? Mas se você acha tão importante me dizer que foi mãe aos quinze anos, tudo bem também. E não, ela não era minha prima. Era a irmã por parte de pai da minha prima. Longa história. Ainda colocando o pé esquerdo pra dentro da casa, vejo minha prima num vestido azul... azul... Azul. Muito azul. Não tem descrição para aquela cor. Bastante azul mesmo. Com miçangas, e babados, e brilhantes, e bijus. Assustador. Cabelos, maquiagens, e luvas e um comportamento muito estranho. Depois que elas duas ficavam em pé, elas não conseguiam mais sentar. E aí se alguém esbarrava nelas, elas ficam com medo de cair, como se estivessem com uma madeira nas costas. Ou melhor, como se estivessem de salto alto. Sabe desenho animado que quando está à beira de um precipício fica balançando os braços pra não cair? Pois é, assim. Todas essas emoções e eu na porta ainda. Com medo, entrei.

No corredor que leva da sala a um dos quartos, vem minha tia (tadinha da minha tia): “levei uma queda inda gora... escorreguei aqui e fui até lá, bati o cotovelo, o joelho...” Muita informação pra quem acabou de chegar do trabalho. Finalmente cheguei ao quarto, troquei de roupa, estava pronta. Elas também estavam prontas. Todo mundo tava pronto. Já eram 9 horas e a festa/culto/celebração/comemoração/homenagem de 15 anos estava marcada para as 8. (não sei definir o que aconteceu, era evangélico e pronto). Ok, não é comigo, eu já cheguei atrasada mesmo, fiquei quieta. Mas o que estávamos esperando afinal? Não sei. Só sei que nesse intervalo ouvi o que temia: “você trouxe sua câmera?” “Não” (Em off: pensei que tinha sido convidada pra festa/etc, não pra ser fotógrafa de novo) “Filha, pega sua câmera e dá pra Joce, ela vai tirar as fotos”. Nãaaaaaaaaao. De novo não!!! Ok, ta bom, resignação. Raios caem quantas vezes quiserem, no lugar que quiserem, e você não pode fazer nada a não ser se desviar pra não ser na sua cabeça.

O que ainda estávamos esperando mesmo? Um carro para nos levar pra igreja. “A gente vai andando mesmo gente, mas que frescura, é bem aqui perto!”, minha mãe, maravilhosa como sempre, botando ordem e tentando simplificar as coisas. “Não, ta todo mundo arrumado, ta chegando um carro aí pra levar vocês e levar elas depois”. Tá... então estaciona uma Kombi escrito “nunseiquelá cargo – transporte de cargas”. “Vamo gente, a gente vai levar vocês, vocês não vão andando”. Ok. À noite, chovendo, vestido, M Norte, quatro mulheres. Uma Kombi não parecia uma idéia ruim. Mas como é pra transporte de cargas, ela não tem bancos. Entende? Fomos em pé nos segurando nos bancos da frente. Vamos lá... A Kombi não ligava. Chave na ignição, aquele barulho de “não vou pegar hehe”, e morria. Cinco vezes. Eu dou a idéia: vamos a péee, tem problema nãaao. “Nãaaao, é só descer e empurrar que pega”. Ah sim, melhor ainda né? Desceram o motorista, e a passageira do banco da frente (outra prima) e começaram a empurrar. Veio um outro cara lá da rua e ajudou. A kombi pegou e começou a andar. E minha prima e o marido dela começaram a correr, tentando entrar. “Corre Marília, vem!” E eu tive aquele momento Pequena Miss Sunshine numa noite de segunda.

Ok, chegamos na igreja. Muitos “ta bonita, ta magra, tira uma foto minha, tira outra, senta aqui, tira outra, já viu fulana, já viu beltrana, essa é fulana, filha da beltrana, lembra dela?” depois, fui ver um quadro de fotos da aniversariante. Gente... sério... o que era eu???? Tinha umas fotos minhas impublicáveis! Eu sempre estava perto da mesa da aniversariante e sempre com aquela cara de “vai, corta logo esse bolo”. Eu e meu óculos imenso, meu cabelo imenso, minha pança imensa e minha boca imensa (sempre aberta, gritando alguma coisa nas fotos). Enfim, melhorei bastante de lá pra cá.

Mas o momento top da noite foi: o filho de um primo (tenho muitos primos que tem muitos filhos) estava colado atrás da mãe dele. E mãe dele estava organizando a festa/comemoração/etc. E ele atrás. Então a mãe dele virou, e com muita raiva disse: “Meu filho, pelo amor de Deus, sai de trás de mim, vai encher o saco de outra pessoa, vai encher o saco da sua prima Joce aqui, vai.” E eu com aquela cara de “eu?” Ele vem pra mim e diz: “Ahhh, você que é a Joce.” “Sim. Er... desculpa, esqueci seu nome.” “Esqueceu? Não acredito que você esqueceu meu nome...” “Er... João!” “Sim, João... o quê?” “Er... Gabriel?” “Não (desapontamento) João Vitor” “Ah, sim, mas eu acertei o João, viu?” (deu de ombros) “Quer tirar uma foto, João Vitor?” “Não” E ele volta pra trás da mãe, que estava andando pra trás e tropeça nele. Com mais raiva ainda ela vira e fala: “João Vitor, sai de trás de mim, meu filho!!! Eu vou tropeçar em você e vou cair!! Mas que saco!!” Todos ficaram super constrangidos com a reprimenda. Mas num toque de sarcasmo fenomenal, ele simplesmente se virou e sorriu aquele sorriso de “hehe, tô nem aí” enquanto a mãe o empurrava pra mim.

João Vitor ainda deu muito trabalho na noite. Ele seria o primeiro a entrar na igreja, com uma bíblia nas mãos Ele andava com pressa e com uma cara de tédio que um adulto só faz em palestras motivacionais e amigo oculto da empresa. Ele teve que repetir o gesto cinco vezes. Cada uma pior do que a outra. Ele foi a diversão da minha noite. Adorei aquelas fotos. E então começa a festa/culto/etc. Entra as daminhas acompanhadas dos... er... tá, o nome não é daminhas e eu não sei o nome dos garotos que entram com elas. Todo mundo entrou. E aí entrou a minha prima. Com uma cara feia, mal humorada, como se estivesse sendo obrigada a participar da festa que ela fez tanta questão de ter. Ótimas fotos também. Bem naturais.

A câmera, a exemplo da última vez, também me deixou na mão. Com flash, estourava no “tudo absolutamente tudo” branco do local. Sem flash ficava tremido. O jeito era improvisar um tripé e torcer pra dar certo. Levanta, senta, entra, sai, João Vitor tinha que entrar de novo e sentar ao lado da daminha, e ele não sentava (adoro João Vitor). Ótimas fotos. O pastor falava “Deuso, Doisi, Seisi” e eu em meu profissionalismo tinha que fotografar sem sorrir. Mais “fotoso” tremidas. Acabou. Vamos comer!

Nunca levei bronca de comer coisas fora da hora nas festas quando era criança. Aos 22 anos levei. Tinha umas jujubas lá dando mole e eu queria doce (depois de muitas coxinhas e pastelzinhos), fui pegar na malemolência, eu e outro primo, aí veio uma tia sabe-se lá daonde e disse: “Ei, não pode não, é pras crianças.” Oi? Festa de quinze anos? Eu como até a mesa se eu quiser porque essa festa não é pra crianças, sua tosca! Claro que não disse isso. Mas pensei. Mas tinha muito mais criança do que qualquer coisa ali. Como em tudo da minha família. Nossa taxa de natalidade é extremamente alta. Maior do que a dos países africanos.

Enfim, minha mãe queria saber como voltaríamos pra casa. E eu também. Mas eu estava ocupada querendo saber para onde tinham levado as jujubas. Ela foi mais inteligente e pediu carona. Ok, canta parabéns, corta bolo, e lá estavam elas... as jujubas! Eram colocadas nos pratos junto com o bolo. Eu pedi extra no meu prato, em detrimento do chocolate. Promessa, longa história. Ainda comendo bolo, nossa carona estava partindo. Sete pessoas em um carro, comendo bolo. E lá vamos nós pra casa. Chegamos em casa 23:50, quase o mesmo horário da última vez. E mais uma aventura familiar vai parar no meu blog. Ainda bem que só se faz quinze anos uma vez na vida... já casamentos...



Escrito por Joceline Gomes às 16h23
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