Randômico


Diplomas, jornalistas e Michael Jackson

Sim, eu falo disso tudo no texto abaixo

Depois de quatro anos estudando, aprendendo, ralando, gastando muuuuuita grana com livros, passagens, cópias, crédito para celular, horas na internet, procurando estágio, fazendo trabalhos, essas coisas, resolveram que não precisa mais do diploma pra ser jornalista. Assim, simples assim. Não precisa mais gente, ei, deixa disso. Acontece que, há algumas semanas (quem souber a data exata, não brigue comigo, tenho uma memória meio ruim e uma noção de tempo péssima), o senhor excelentíssimo Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, votou a favor do fim da obrigatoriedade do diploma em jornalismo para o exercício da profissão de jornalista. Aha! Claro que esse trecho não fui eu quem escreveu. Isso é o que os jornalistas estão dizendo por aí para ficar mais bonito e jornalístico o que aconteceu.

Para mim foi assim: o Gilmar Mendes, aquele cara que tem capangas e que vai botar um deles pra seguir e matar o Joaquim Barbosa qualquer dia desses, resolveu que seria legal os donos dos grandes meios de comunicação brasileiros empregarem seus filhos sem precisarem pagar quatro anos de faculdade. Aí ele disse assim: jornalista não precisa de conhecimento técnico/científico. Ah é, senhor ministro? Então me explica uma coisa: o senhor sabe o que é uma reportagem de perfil? O senhor saberia fazer a resenha de um filme? O senhor sabe o que é a teoria do gatekeeping? O senhor sabe o que é um lide? Um nariz de cera? Um olho de matéria? Ou a diferença entre um artigo, uma matéria, uma nota, uma manchete ou uma reportagem? Ou entre uma matéria quente e uma matéria fria? Ou ainda a diferença entre um personagem, um contato e uma fonte? Pois é, senhor excelentíssimo... o senhor não sabe. Logo, o senhor não poderia ser um jornalista. Porque qualquer jornalistasinho precisa saber dessas coisas pra escrever qualquer porcaria sobre qualquer excelentíssimo ministro que quer mais que esse país exploda. No dia que todo mundo souber essas coisas, e souber fazer todas muito bem feitas, aí talvez eu concorde que essa profissão não precise de diploma. Mas até lá, eu acredito que sim, nós, jornalistas, precisamos de diploma. Porque só dentro de uma universidade nós conseguiremos aprimorar um talento que muitas vezes já temos, mas também poderemos conhecer obras, autores, filmes e teorias que enriquecem nosso conhecimento de mundo, e nos torna mais aptos para falar sobre qualquer coisa.

Sabia que Foucault e Barthes falaram sobre simplesmente tudo que você imaginar? Sabia que eu li os dois durante o meu curso? Sabia que eu passei a admirar a arte durante uma disciplina chamada Elementos de Estética em Comunicação? Sabia que eu aprendi a ler um livro de fato, analisando seus enredos e temáticas, durante meus anos na universidade? Sabia que eu não fui a única?

Esse país é uma piada... ao invés de tomar decisões para incentivar e aprimorar o ensino superior, suas autoridades resolvem que o ideal mesmo é ter cada vez menos pessoas qualificadas cuidando de uma já deficiente comunicação de massa. Há que se considerar seus pontos positivos, claro... er... bom... um técnico operador da mesa de uma rádio pode escrever matérias quando o jornalista responsável estiver de férias, sem que, por conta disso, se contrate outro jornalista temporariamente para receber um salário justo. Sejamos realistas, a idéia é essa: diminuir os salários. Em época de crise, o que puder ser feito para baixar os gastos de uma empresa será feito. O técnico de som não vai receber mais por escrever matéria. Por que uma empresa pagaria mais caro para alguém com graduação e pós-graduação se o cargo não exige nível superior?? Sacaram?

A pergunta que fica é: qual será o critério agora? Os “donos de empresas de comunicação” vieram a público dizer que nada vai mudar e que eles continuarão dando preferência aos graduados. Mas todo mundo sabe que agora o negócio tá esculachado. Vai ser assim: “Hummmm, que descrição no Orkut mais interessante... acho que vou contratar essa pessoa.” “Nossa, que Twitter atualizado! Ela deve ser ótima para cobrir eventos em tempo real, tá contratada!” Enfim, é triste.

Ainda tem a morte do Michael Jackson no meio, pra complicar tudo. Aliás, a cobertura da morte dele deve ser a primeira dos “jornalistas sem diploma”. Vi cada barbaridade hoje... uma jornalista que pede para as pessoas na rua cantarem um trecho de uma música do Michael Jackson e fica rindo na cara deles; outra que quase senta nos CDs de coleção de um “grande fã”; outra que vai pro Ibirapuera e pede pra um “grande fã” dançar e tenta imitar os passos... a essa altura, o Brasil está cheio de “grandes fãs”, né? Mas o melhor mesmo foi a manchete do Meia Hora, do Rio de Janeiro, que diz: “Nasceu negro, ficou branco e vai virar cinza. Descanse em paz, Michael.” Criativo, né? ... sem comentários... A cobertura da morte de Michael Jackson mostra o que vem pela frente no país dos “quiiiii, diploma pra quê?” Não basta Michael Jackson ter morrido, é preciso saber porque ele morreu. Aliás, é preciso saber quem é o culpado. O que aconteceu? Quem estava lá? Tem foto? Tem vídeo no YouTube? Quais foram as últimas palavras dele? Ou seja, querem que o cara volte do além pra responder perguntas. Mas eu tenho uma novidade. Jornalista muitas vezes interpreta as coisas como bem entende ou segue o que outros estão fazendo para que, com isso, não veja que está fazendo algo errado, e é exatamente aí que se enrola. Porque hoje vivemos na cultura do sensacionalismo, do “eu posso falar mais sobre isso”, e mostrar parente, amigo do parente, testemunha que viu o amigo do parente falar para o parente sobre o falecido... é grave. E eu aprendi a perceber essas coisas dentro de uma universidade. Mas enfim, reflexão pra quê? Diploma pra quê? Estudar pra quê? Eu vou é fazer uma lipo, implantar silicone na bunda e no peito, “compor” um funk e ir pra Furacão 2000. Lá também não precisa de diploma. A questão é que eu tenho um. Será que isso dá um funk?



Escrito por Joceline Gomes às 22h56
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Minha primeira crise aérea

Não foi tão emocionante como há três anos, mas teve seus momentos

 Não sou de seguir a moda. Geralmente, só gosto de alguma coisa muito tempo depois ou muito tempo antes dela ser up. É uma espécie de vaidade e desejo de exclusividade que tenho. Estou no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e hoje, após mais de dois anos que a Globo fazia plantão nos aeroportos brasileiros, estou tendo meu momento crise aérea. Calma, deixe-me explicar como foi que cheguei aqui. Um momento flashback, como em Lost. É o seguinte: namoro a distância. Mulher prevenida que sou, sempre comprei as passagens com pelo menos um mês de antecedência. Pra ficar mais barato sabe? E também pra ficar contando os dias com um prazo definido pra essa agonia acabar. Porém, não contava com uma demissão (pois é...) uma semana antes da minha viagem (pois é...²) Tudo bem, eu posso entregar currículo no Rio. Mas eu não contava que, no domingo, um dia antes da minha viagem, meu namorado iria torcer o joelho e ficar engessado e de repouso por 15 dias. Ou seja, os currículos que levei eu trouxe de volta.

Beleza, contatos e mais contatos depois, descolei uma entrevista em Brasília. Bastava eu ligar para agendar. Quanto mais cedo melhor né? Volto para Brasília na segunda! Porém, eu tinha marcado meu vôo de volta para muito cedo. E eu teria que acordar ainda mais cedo para estar no aeroporto a tempo. Logo, vou remarcar. O quê? Passagens para segunda-feira de manhã depois de um feriadão? R$1200 a mais barata. Ou seja, o dobro do que eu paguei dois meses antes. “Moça, não tem na terça-feira na mesma faixa de preço que eu paguei antes?” “Tem sim, terça dia 16 né?” Que bom, passagem comprada. “Seu vôo foi marcado para o dia 17 às 10:28, senhora.” Peraí! Se segunda é dia 15, como terça é dia 17? “Senhora, não tem mais como mudar, já está comprada e se quiser mudar nós vamos estar cobrando mais uma taxa de alteração.”(sic) O modo ríspido e ameaçador como a atendente falou comigo só faltou acrescentar um: “e tenho dito! Hum!”.

Tá, liguei na ouvidoria e registrei uma reclamação. Aliás, essa é a segunda que faço esse ano. Não sei qual é o problema desse povo da Webjet. É uma companhia nova, que quer conquistar clientes, mas toda vez que preciso de informações ou fazer alguma alteração, seja por telefone ou no aeroporto, sou mal atendida. Para vocês terem noção, uma atendente já chegou a me dizer: porque você não pega logo o dinheiro de volta e compra em outro lugar? (!!!!) Eu hein. Eu que não sou e nunca fui vendedora – a não ser um dia que fui pra feira na véspera do dia das crianças e foi uma lástima – sei que não se deve tratar um cliente assim. Enfim, na terça, me ligaram da central de vendas e me deram a opção de voar a noite. Só que já passavam das 3 da tarde. Eu teria que me arrumar e sair voando pra chegar a tempo. Literalmente. Deixei pra quarta mesmo.

Beleza, acordei 5:30, saí de casa às 6:30, cheguei no aeroporto às 9:38. (!!!!!) Fiz o check-in e fui pra sala de embarque. Detalhe: não tinha o número do portão. Vai avisar no telão, disse o atendente. Tá, né? Chegando lá, cerca de 10 pessoas em volta do telão principal. Isso não parece bom. Já estava na hora prevista para o embarque e nada de aparecer o número do portão no monitor. Quando eu decidi sair daquele montinho e ir de portão em portão perguntando “é aqui que eu entro?” vejo no horizonte uma pessoa vestida com o uniforme da Webjet vindo em nossa direção. “Senhores, este vôo foi cancelado, vocês serão realocados num vôo da Gol ou no próximo vôo da Webjet, às 13:15.” O relógio marcava 9:50 da manhã. Beleza, desce pro saguão e vamos esperar informações. O que era um grupo de 6 pessoas virou uma galera emputecida com uns 40. Aí começou a brincadeira: eu tenho compromisso; eu tenho que estar em Brasília às 2; eu tô passando mal. Como se entrar num avião fosse terapêutico, como se ninguém mais tivesse compromisso, como se as pessoas estivessem adorando estar ali, sem saber o que vai acontecer poucos dias depois de um avião ter desaparecido em alto mar.

Eu achava muita graça daquele circo. E ria. Mas parece que eu não tinha esse direito. E logo os senhores enfiados em seus caros paletós e carregando suas malas de rodinhas que levavam notebooks HP me repreendiam com olhares de “qual é a graça?” A graça é vocês fazerem esse auê por um problema que já está sendo solucionado. Aí vinha o funcionário da Webjet e todo mundo se agrupava em cima dele. Eis uma notícia: “tenho os 15 primeiros bilhetes. Os próximos estão sendo feitos pela Gol. Então aguardem que todos serão chamados.” Não foi suficiente. Mas eu sou maior de 65 anos; mas eu fui o primeiro a chegar; mas que porra é essa? Sim, tinha gente que apelava. Enfim, cada vez que o funcionário chegava era aquela expectativa. “Será que vão me chamar ou eu vou ficar pro vôo de 1 da tarde?” Aí rolava o momento “fui escolhido”, que era quando chamavam seu nome e você fazia aquela cara de “ihu, vou agora, e vocês só mais tarde hahaha”. E aí paravam de chamar mais nomes. As pessoas logo murchavam e voltavam àquele estado sorumbático de quem espera notícias de um parente em cirurgia.

Me chamaram! Logo agora que eu já tinha sentado no chão e estava começando a me acostumar com a idéia de ir só mais tarde... Enfim, em seguida, vem a hora de entrar no avião, onde você se sente uma penetra numa festa de debutante. Parece que você ta usando jeans C&A numa festa de longos Versace. O melhor é a cara das pessoas quando te vêem entrando. Dá vontade de rir. Mas não posso. De novo. Mas o que me dá vontade de rir mesmo é que, pela primeira vez, estou com medo do avião cair. Vai saber, né? Gol já caiu uma vez. E se a Webjet não tivesse cancelado o vôo, talvez fosse a próxima. Enfim, a senhora ao meu lado rasgou a página da revista da Gol. Era um artigo sobre o amor no casamento. Esquece a parte dos Versace. Pelo visto, todos parcelamos nossas roupas por aqui.

Cheguei em Brasília 12:20. Um bom tempo depois da aventura ter começado. Rolou o momento sentar no chão. O momento protesto. O momento tiazinha passando mal. Os momentos da crise aérea. Quase três anos depois.



P.S: Este texto não segue as novas regras ortográficas da língua portuguesa. E acho que não vou seguir por aqui. Vôo continuará sendo vôo pra mim. ^^



Escrito por Joceline Gomes às 22h34
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Carta a um coitado anônimo

Quem sabe um dia você lê e sabe que é exatamente de você que eu estou falando

Respeito não se impõe ou pede: se conquista. Tudo que você conseguiu foi medo, e com isso não se tem lealdade, credibilidade e muito menos o “respeito à hierarquia” que você tanto preza. Sinto pena de você. Anos sem férias, dois trabalhos, folgas só aos finais de semana... Deve ser difícil ser feliz assim. Talvez por isso você não queira ver mais ninguém feliz. Você ganha tanto, está sempre querendo ganhar mais, porém, não tem com o que, com quem e nem como gastar. Tempo não tem, nem amigos pra um barzinho ao final do expediente. Aliás, quem iria querer ir a qualquer lugar contigo ao final do expediente? Nós, os funcionários, sem nome e sem identidade, apenas com uma pasta funcional no fundo de um armário recém-organizado por você, contamos os minutos para ir embora e nos vermos livres desse clima pesado e horroroso que paira no ar desde que você entrou. Com isso, a produtividade caiu muito, o clima organizacional está horroroso, ninguém mais tem ânimo para trabalhar, e só você pensa que está tudo muito melhor com a sua chegada. Mas o que importa? Você não percebe nenhuma dessas coisas. Sua função é ver se sai menos dinheiro do que entra.

Tenho pena sabe... não se pode tratar ninguém bem quando você mesmo não se trata. Piadas?  Só homofóbicas ou com coisas de trabalho. Coisa de tirano. Sinto pena de ver um órgão tão longe de um exército virar um em tão pouco tempo. E não pense que eu não sei que meu computador estava sendo monitorado. Queria ter alguma prova pra te colocar na justiça. Você gosta tanto de leis né? Seria legal ver todas contra você. Eu com dois advogados de um lado da mesa e você do outro. Acuado. Como eu fiquei em outro momento. Lembra? Ah, acho que não né? Só quem apanha que lembra, Quem bate esquece. Pois é, eu não esqueci. Mas um dia eu irei. Porque tudo no mundo tem ação e reação. Aqui se faz aqui se paga. Quanto mais rápida a subida, maior a queda. E todos esses ditados populares que dizem a mesma coisa: um dia a gente paga por tudo de errado que fizemos nesse mundo. E você sabe que fez algo errado, não sabe? Se não souber, não vai ser eu quem vai te explicar o que foi nem contra quem. Mesmo sendo tão explícita assim é possível que você não entenda a mensagem. Porque você não entende nada que não sejam leis e números. E eu sou péssima nas duas coisas. Logo, deixo esta carta aqui para a posteridade. Quem sabe um dia você passe por aqui e leia. E talvez você se lembre do que fez e a quem.



Escrito por Joceline Gomes às 14h47
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