Randômico


Sem medo

Certa vez, ouvi que a sua imagem é construída pelo olhar dos outros. E isso é totally verdade. Pense num espelho. Você só consegue se ver se olhar para ele, certo? Assim é a sua reputação, sua imagem, sua personalidade. Você tem uma formada, mas só quem pode dizer sobre ela é quem está de fora. E às vezes isso não bate com o que você acredita que realmente é. É como aquele dia que você jura que arrasou na festa, mas quando se olha no espelho percebe que estava com um pedaço de papel higiênico na testa.

Você pode se achar um amor de pessoa e, no entanto, ser chamada de "bruta". Você pode se considerar a pessoa mais tranqüila do mundo e todos "medirem as palavras" antes de falar contigo para não "provocarem briga". Você pode acreditar que só faz o seu melhor, mas as pessoas chamarem isso de perfeccionismo. Enfim, existem muitos mal-entendidos (com hífen ou sem hífen?) nesse meio caminho. Mas acredito que o item que mais me incomoda é o da briga. As pessoas, hoje em dia, fazem de tudo e mais um pouco para não entrarem numa briga. Ainda que seja para defender suas opiniões. Nem que seja para sustentar um ponto de vista comprovadamente verdadeiro. Eu chamo isso de "um boi para entrar numa briga e uma boiada para sair dela". Às vezes, as pessoas só não entram para evitar sentir raiva do outro, pois o importante é amar a todos, sempre, em qualquer situação. Eu nomeei isso de "repressão social, religiosa e pessoal ao ódio e à raiva".

Sempre ouvi, desde criança, que sentir ódio fazia mal, que era um dos piores sentimentos da raça humana, e que senti-lo era terrível e feio e uatchatcha. Cresci com isso, e sempre que sinto raiva de algo, de fato, passo mal. Meu corpo somatiza problemas emocionais e mentais que tenho e sinto dor de verdade. Nos braços, ombros, cabeça. Já cheguei a ter febre. Mas como evitar sentir essas coisas? Deixando de sentir raiva ou tentando dizer a si mesma que "não, você não pode sentir isso?" No meu post anterior eu disse "Me odeie, Me deteste, mas não deseje que eu seja feliz". É essa a idéia. Sério. Se você me odeia, permita-se sentir isso. Se você tem medo de mim, permita-se. Diga. Em voz alta. Já diria os poetas com calça de lycra: não se reprima.

Sentimentos reprimidos, isso, sim, faz mal. Super amigos, super com medo um do outro. Não entra na minha cabeça. Tenho passado por situações assim ultimamente e tudo isso me faz pensar muito. Não sei me expressar muito bem a respeito, mas sei que sinto esse medo, que todo mundo já me falou a respeito, menos a pessoa que o sente. Eu sei que você consegue. Tenta. Try me. Não vou abandonar a amizade ou me sentir diminuída ou, pior, superior. Acho que amizade não envolve dizer o que você acha que o outro quer ouvir, mas dizer o que ele precisa ouvir. Posso adiantar aos poucos leitores do meu blog que estava até pouco tempo numa fossa que transbordava de tanta merda. Mas tive amigas que me apontaram o dedo na cara e me falaram coisas que me fizeram chorar. Raiva delas? Nenhuma. Absolutamente. Elas me acordaram para uma realidade que eu achava ser problema de percepção alheia. Mas que era problema no meu espelho social. Eu me via de uma forma e os outros de outra. Mas ninguém tinha coragem de me falar a respeito.

Após essa experiência, resolvi fazer uma enquete suicida e perguntar, no meio de conversas cotidianas, se meus amigos sentiam medo de mim. As respostas? "Às vezes", "ah... um pouco né?" Não se reprima, não se reprima, não se reprima... um, dois, três, esquerda direita, não se reprima, não se reprima... poooooode gritar! Acho que elas estavam com medo de me dizer que sentiam medo, porque tinham medo do que eu poderia fazer com elas depois da informação.

Queridas amigas(os), não sou o incrível Hulk, não sou o Osama Bin Laden, tampouco o Bush, que enforcou seu maior inimigo e colocou as imagens na Internet pra todo mundo ver. Não tenho inimigos. Mas tenho pessoas que odeio e que me permito odiar. Apesar do que minha mãezinha me ensinou. Esse ódio me liberta de doenças, dores, e de mentir pra mim mesma, e só de evitar tudo isso me sinto muito bem. Sendo assim, batam na minha cara, me xinguem, parem de falar comigo, só não finjam mais não sentir medo. Eu sinto ele saindo de vocês. Mas apesar de tudo, repito: não precisa ter medo de mim. Apesar de tudo, sou apenas alguém com defeitos mal administrados. Como vocês. E eu adoro os defeitos de vocês. Me faz me sentir humana. E eu adoro isso. Logo, se faço vocês sentirem medo, saibam que eu sinto muito mais de perder vocês por besteira. É sério. Não faria nada com vocês. Sei que grito, brigo as vezes, me descontrolo, mas alguém precisa sair desse marasmo que é a vida urbana cotidiana. A gente vai, volta, entra e sai, e todos falam baixo, abaixam a cabeça, não falam palavrão, "pois não, senhora", "correto, senhora", "entendo, senhora" e acham que está tudo bem. Enfim, não quero me justificar citando a "sociedade", mas só queria mostrar que sou assim e sou feliz. E achava que vocês entendiam e aceitavam quem sou, não por medo, mas por amizade mesmo, aceitar o outro como ele é, lembram?

De qualquer maneira, o medo é um sentimento que nos protege de nos jogarmos de um prédio, sermos comidos por crocodilos ou quebrarmos a cara com algumas pessoas. Mas ele também nos impede de viver muitas experiências que transformam nossas vidas para sempre e nos tiram de um estado semi-vegetativo estudo-trabalho-balada. Já diria O Rappa: paz sem voz não é paz, é medo. E medo paralisa. A todos vocês, meus amigos, minhas mais sinceras desculpas por qualquer coisa que eu tenha feito pra despertar esse sentimento, e o último dos meus conselhos: keep moving.



Escrito por Joceline Gomes às 00h00
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