Randômico


Caso da menina pobre sem nome

 

Vocês lembram da menina Isabela né? E da Laila Luiza Ferreira, vocês lembram?

 

Tem um assunto que já morreu, literalmente, mas não canso de ficar indignada com o sensacionalismo nele envolvido. O caso da menina Isabela. Essa frase quase que virou até uma palavra única me fez começar a escrever um texto a mais de um mês. Mas preciso dizer o quanto todo aquele circo montado em frente à casa dos Nardoni, como se outra criança fosse ser jogada a qualquer momento e eles quisessem filmar ao vivo e a cores me deixou desesperada de raiva. E não, eu não vou apresentar nesse texto nenhuma entrevista exclusiva com ninguém. Até porque, a essa altura, todo mundo já falou o que devia. E o que não devia também.

Lembro de estar passando em frente a uma TV em Caldas Novas e vendo o casal Nardoni dando uma entrevista exclusiva. Na hora, me veio um pensamento: "o que esses jornalistas fazem pra conseguir essas entrevistas? Ameaçam de morte?" Porque só pode ser isso. Não é possível. O Brasil inteiro te odeia, quer te ver morto, aí você vai com a cara mais lavada do mundo para a maior emissora do país falar que é inocente?? Não interessa se é ou não. O fato de você precisar ir para o maior canal aberto da TV brasileira mostra que de alguma forma você estava desesperado. Ou então que os repórteres dessa TV te apurrinharam tanto que você não tinha outra opção. Eu fico com a segunda.

Outra coisa: esse caso dessa menina só foi notícia porque ela era branca e morava num prédio de classe média alta. Não, não estou falando isso de brincadeira, nem de zuação, nem por complexo "sou negra e o mundo me odeia por isso". Estou falando isso porque é fato. Aqui perto do Distrito Federal, no município goiano de Santo Antônio do Descoberto, houve um caso bem mais sinistro na mesma semana do "Caso da Menina Isabela".

Um casal formado por um cara de 42 e uma menina de 15 ANOS, repito, 15 ANOS, matou Laila Luiza Ferreira, uma menina de 9 anos. Antes de morrer, a menina foi espancada, estuprada e enforcada. Ela foi enterrada de cabeça para baixo no quintal da casa onde o casal vivia... Sem comentários. O que temos nesse cenário? Pedofilia, estupro, agressão, ocultamento de cadáver... o que temos no "Caso da Menina Isabela"? Uma criança moradora de prédio nobre morta por alguém tido como "normal". O que temos de diferente? A menina que morreu no Goiás não era rica, nem os pais, nem ninguém que ela conhecia, nem seus agressores. Ou seja, ela era alguém cuja morte não significa nada. E os culpados, ah, já se espera um crime bárbaro de pessoas pobres morando num lugar de gente pobre. Entendem o que quero dizer? Não estou questionando qual notícia é "melhor" ou "mais importante". Os dois crimes foram bárbaros, digno de 300 de Esparta, mas um quase virou filme enquanto o outro foi cuspido e escarrado da mídia por puro descaso. A vida da criança pobre não vale nada por aqui?

Coisas assim me revoltam. O desrespeito pela vida de uma pessoa apenas porque ela não tem o carro do ano, o emprego invejável ou um sobrenome que vale como herança. Odeio isso. Me dá asco. E esse caso dessa menina me fez pensar nisso. Faço humor negro com o caso, mas tenho sentimentos, ok? Me doeu saber daquilo também. Só acho ridículo fazerem uma superexposição sensacionalista desse caso enquanto o outro não recebeu quase nenhuma cobertura. Se a mídia quer show, que montem infinitos Big Brotheres. Não brinquem com a vida das pessoas ou coloquem seus interesses comerciais acima dela. E já digo logo, se eu morrer de forma escrota e vierem fazer palhaçada com o meu nome: NÃO DÊEM ENTREVISTA! E tenho dito.



Escrito por Joceline Gomes às 21h23
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