Black tie, man in black, black and white
Porque roupa social me incomoda tanto?
Éramos os únicos numa entrevista em grupo para estágio. E éramos os únicos na comissão especial da reforma tributária. Eu e meu All Star social. Preto e branco. Simples assim. Chamo de social porque li em algum lugar que se você não sabe o que vestir, use preto e branco e você estará “elegantérrima”. Mas a pergunta que deve ter ficado no ar é: o que eu estava fazendo numa comissão de reforma tributária? Representando os estagiários do meu setor, off course. O Seth do The O.C também estava lá. Lógico que era só alguém parecido, afinal, o que ele faria lá? Mas, se ele estivesse lá mesmo, com seu típico All Star (social ou não), eu pediria um autógrafo. Afinal eu não seria a única a usar o sapatenho de milhões de jovens no mundo afora (nossa, clichê horrível...). Tenho uma roupa que costumo chamar de uniforme para entrevistas de emprego, é uma roupa social, dá pra usar em outras situações, mas, não sei porque, simplesmente não consigo usá-la em outra ocasião. Sem motivo também é uma cisma antiga que tenho: acho homem de terno e gravata o espécime menos confiável e mais odiável da raça humana.
Aqui abro dois parênteses. Homem de terno é como mulher de salto: estão no momento de afirmar os estereótipos. Mulher de salto = sensual, vulnerável, “feminina”. Homem de terno = poderoso, dono do mundo, rei absoluto da esfera pública da sociedade. É por isso que odeio ambos (homens de terno e salto alto).
Mas o outro parênteses diz respeito a uma confusão infantil. Sabe quando você é criança e corre para abraçar o seu pai? Aquela cena bem “papai voltou da guerra” da maioria dos filmes de guerra? Então, certo dia, minha mãe, que estava de folga, me levou para esperar o meu pai sair do trabalho. Assim que descemos do ônibus, corri com toda a velocidade possível chamando “Paiêeeee”, e o abracei forte, muito forte... abraçar o pai assim é tão legal... Só não por um pequeno problema: ele não era o meu pai.
Como eu poderia saber? O cara tinha bigode, era alto, levava uma pasta executiva em uma das mãos e usava um terno bege. Meu pai era baixo, não gostava de barba, tinha pouco cabelo, usava jeans e levava uma pasta preta escrita “Conab” em uma das mãos. Semelhante, vai? A única maneira que eu encontro para justificar esse meu erro é que eu era pequena, baixinha, não via além da cintura das pessoas a não ser que levantasse a cabeça. E outra, eu achava que meu pai já estaria esperando por nós assim que desembarcássemos do ônibus. Na verdade, não tem justificativa. Eles eram completamente diferentes. Mas o cara de terno simplesmente deu aquele sorrisinho de “ai menina, que engraçada você” enquanto minha mãe falava baixinho, ora pra mim, ora pro cara “minha filha, esse não é o seu pai, hehe, desculpa moço”. E eu, como disfarço super bem (desde criança) olhei para cima e soltei um “ah não? Hum.”
Se Freud realmente explica, ele diria que meu ódio por pessoas de terno vem daí. Mas isso não justifica o fato de eu não gostar de usar roupa social. Nem salto alto. Mas nem preciso de muito esforço para isso: calça social aperta, salto alto semi-aleija. Desconforto total. Não preciso de mais argumentos.
Independente da situação, ainda prefiro meu jeans, uma camiseta, e meu All Star – ainda que seja social.
Escrito por Joceline Gomes às 09h53
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