Contatos, personagens e fontes
Quando as pessoas deixaram de ser pessoas para os jornalistas?
Em mais um capítulo da história “por que quero ser jornalista mesmo?”, andei pensando numas coisas que as pessoas (principalmente no meu círculo “profissional”, se é que já posso dizer assim) costumam dizer. São termos repetidos à exaustão e que, de repente, passam a fazer parte do seu vocabulário também, como uma mensagem subliminar. Exemplos não faltam, mas aqueles nos quais tenho pensado ultimamente serão listados neste texto.
Todo e qualquer acontecimento envolvendo muita gente se torna uma “oportunidade de fazer contatos”. Contatos? No dicionário do jornalista-sanguessuga contato é alguém que é importante conhecer para que possa pedir algo em troca depois, como um emprego, um telefone, ou uma notícia que ele não sabe procurar ou não consegue encontrar. Eu mesmo a-do-ra-va quando me falavam algo assim: “procure uma personagem que tenha sofrido extorsão”. Sim, os jornalistas chamam as vítimas de qualquer coisa de personagem, como se fosse uma história a ser contada, uma ficção, uma invenção de alguém. O que pode vir a ser, caso o “contador” dessa história não tenha ética. Se bem que essa história de ética no jornalismo é algo completamente questionável, pois eles sabem crucificar qualquer um que tenha feito qualquer coisa, mas não sabem olhar no espelho e ver o tanto de atrocidades que fazem em nome do “bom jornalismo”, seja lá o que isso for. Neste momento, concordo com Chuck Palahniuk em seu abso-fuckin-lutely maravilhoso livro Cantiga de Ninar, onde ele escreve: “A pergunta hipotética sobre ética no jornalismo na verdade é: você quer mesmo ganhar a vida fazendo isto?”
O mais bizarro de tudo é que, enquanto chamam as pessoas comuns de “personagens”, as autoridades são denominadas fontes. Fontes... de onde brota conhecimento, informações e brindes. Muitos brindes. É presente de natal, cortesia para shows, lugar vip em restaurantes ou, inclusive, potes de sorvete. Essas autoridades podem ser de qualquer especialidade, até cabeleireiros viram fontes, dependendo da historinha, digo, matéria que o repórter está escrevendo. Mas não é qualquer cabeleireiro. É aquele do Lago Sul, que já apareceu no programa Mais que emergente e atende os “famosos” de Brasília (por famosos entenda-se socialites bancadas pelos maridos ou suas filhas bancadas pelos pais.)
Anyway, não é isso que me revolta. Quer dizer, não é só isso. O que me incomoda é saber que os jornalistas são tão fechados em seus mundinhos de grandes salários, glamour, viagens grátis e notícias copiadas da internet que não consideram mais as pessoas como pessoas. Apenas eles têm vida, emoções, problemas, contas a pagar, mas o mundo lá fora não; é só um monte de contatos, personagens e fontes. Necessariamente nessa ordem. Porque o esquema é o seguinte: você conhece a pessoa, troca cartões de visita, guarda o cartão (um contato, portanto), quando precisar de uma personagem que tenha algo a ver com a área ou estilo de vida da pessoa que você conheceu você liga para ela, e se ela for “autoridade” em alguma coisa, ela vira uma fonte. É nesse mundo fechado e simplista (não simplificado) que vivem os jornalistas, que definitivamente não são os “representantes da população”, como eu (e acredito que muita gente) pensava anteriormente. Ou ainda pensa. Mas eu sou otimista (uma romântica, lembram?). Ainda tenho a esperança de que um dia as pessoas voltem a ser pessoas, e de que os jornalistas voltem a ser jornalistas.
Escrito por Joceline Gomes às 17h43
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