Randômico


Sobre elefantes

Alicia nunca gostou de elefantes. Sempre que via um, tratava de explicar minuciosamente os inúmeros motivos pelos quais não gostava de tê-los por perto, sequer de vê-los de longe. Seus amigos e parentes que já fizeram um safári lhe falavam que os elefantes podem ser grandes e feios, mas que sem eles o safári não acontece. Outra coisa que diziam era que falar tanto dos bichos só os tornavam mais insuportáveis. Alicia prosseguia listando seus defeitos. Até que, um dia, ela percebeu que, se deixasse os elefantes para lá e simplesmente parasse de prestar atenção em seus atributos odiáveis, eles deixariam de aborrecê-la. E assim fez.

Eles não deixaram de irritá-la, porém, ela, persistente, não desistiu de seu propósito: deixar os elefantes seguirem seu rumo sem serem julgados a todo momento. Uns dias ela conseguiu, outros, não resistiu, mas perseverou. Alicia ainda não gosta de elefantes. E não sabe disfarçar seu desgosto. Mas aprendeu que uma maneira de entendê-los melhor seria colecionando algumas miniaturas. Pequenas, inofensivas, não lembravam nem de longe aqueles monstros cinzas e enrugados dos quais ela sentia tanta repulsa. Tinha de várias cores. Azul, roxo, branco... e quando sentia aquela repulsa inflamada, tratava de guardá-los numa lata de ferro. Pelo menos até conseguir voltar a olhar para eles novamente com curiosidade e bom humor, não com raiva. Afinal, num safári, é preciso olhar e conviver, por mais rápido que seja, com elefantes. E ela queria muito fazer um safári.

Alicia queria que seu safári fosse agradável e queria poder tirar fotos com os elefantes ao fundo, sem sentir nojo. Na verdade, toda a sua ojeriza a elefantes vinha do fato de que, na verdade, o que ela mais queria era montar um. Dominá-lo. Esse ser imenso e pesado que descobre água só sentindo a terra sob seus pés (não confirmo essa informação. Lembro de ter visto no Fantástico uma vez, ou seja, fica para reflexão...). Ela queria mostrar que era capaz. Como a Kesha no clipe “Your Love is my Drug” (minhas referências, além de continuarem ruins, são velhas...).

Ela nunca conseguiu. Não satisfatoriamente, como quem realmente tem controle da situação, pois, nas poucas tentativas que fez, se desequilibrou e ficou com muito medo de cair, o que a fazia descer imediatamente. Ou seja, não ficava em cima do elefante por muito tempo. Em um gesto de desapego (desprendimento/frustração/decepção), desistiu de tentar. Desistiu de conseguir. Continuou odiando elefantes, mas agora prefere, simplesmente, ignorá-los. Jogou fora os que guardava, parou de colecioná-los, parou de procurá-los onde não estão a venda e, enfim, fez o seu safári. Nenhum elefante saiu nas fotos.



Escrito por Joceline Gomes às 16h05
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A teoria da segunda perna

Fui me depilar hoje. A cera estava ainda mais quente do que o normal, e meu instinto sobrevivente de suportar grandes dores sem gritar quase me abandonou. Até perguntei pra minha depiladora: você sabe quem foi que achou que arrancar todos os pêlos do corpo era uma boa ideia? Você sabe alguma coisa da história da depilação? Existe algum livro? Existe alguém interessado em entender como isso tudo começou?

Meus momentos “revolta” sempre me trazem a necessidade do estudo e de conhecer mais sobre o assunto. Mas, na falta de Internet em casa, não há Google que possa me ajudar. Eu fico imaginando o momento do insight: e se todos nós tivéssemos pernas lisas e axilas que não armazenassem suor? Será que isso faria do mundo um lugar melhor, ou mais cheiroso, pelo menos?

Tá, eu e minhas “viagens” podemos ficar um pouco mais ausentes desse blog. Neste momento vocês devem se perguntar: afinal, qual é a “teoria da segunda perna” de que fala o título? A teoria é a respeito de algo que todos nós estamos bastante habituados a ter, mas que, às vezes, pode ser a maior fonte de frustrações e conflitos com os outros. Não, não estou falando dos pêlos, estou falando de expectativas.

O negócio é o seguinte: quando vou me depilar, vou esperando tanta dor, mas tanta dor, que quando a depiladora arranca rápida e ferozmente a primeira lasca da minha perna, digo, da cera, a dor não se compara ao que eu esperava, logo, é menor, fico tranquila. Aí, quando ela passa para a segunda perna, penso: tsaaaa, besteira, não vai doer nada, lembra que a primeira não doeu tanto assim? E baixo a guarda. Já diria Paralamas: meu erro. A segunda perna dói, cara! Dói muito! Muito mais do que a primeira!

Agora tá mais fácil pra entender do que se trata a teoria, né? Expectativas muito altas não são atingidas, já as muito baixas, te deixam desprotegida. Resumindo: expectativas geram frustração. Sejam altas ou baixas, produzem ansiedade, angústia, medo e uma série de outros problemas que criarão alguns conflitos, além de algumas somatizações.

Sendo assim, a moral da história, como fazia He-Man (Ele-Homem, em tradução livre), é: tente não criar expectativas nas coisas. Sejam boas ou ruins, as coisas já trazem em si uma série de possibilidades. Deixe que elas se desenvolvam por conta própria e vá viver sua vida enquanto isso. Lembrando: eu disse TENTE. Porque todos sabemos o quanto é difícil (quase impossível) não criar expectativas a respeito de algo. Sem contar o mantra: pense positivo. Ou seja, não basta esperar algo, você precisa esperar que esse algo dê certo, o que significa: da maneira que é melhor pra você. Não preciso dizer que “O Segredo” contribuiu nesse quadro e gerou muita frustração, né?

Então, independentemente do que disse o documentário/livro/áudio-livro narrado por Ana Maria Braga, não crie expectativas. Não estou dizendo que não é pra ter esperança, que é outra coisa completamente diferente. Estou falando para TENTAR não ir cheio de expectativas para cima dos eventos e terminar frustrado. Expectativas baixas até que não te prejudicam muito porque, como dizem, “o que vier a mais é lucro”. Mas, às vezes, isso pode comprometer a visão que você tem de outra pessoa. Por exemplo: você vai esperando tão pouco de um aluno que nem investe nele, não se preocupa com as dúvidas dele, essas coisas. Ele pode não se desenvolver tanto quanto os outros alunos.

Acho que já dei exemplos demais. Vocês já entenderam a minha teoria, que vale para muitas coisas. Alunos, relacionamentos, amizades, empregos, favores... Não exija nem espere nada dos outros. Apenas de você mesmo. Dê o seu melhor sempre, em qualquer situação, e você não ficará frustrado consigo próprio. Já com o mundo... bem, nós sabemos que o mundo é capaz de nos surpreender a todo momento. Para o bem e para o mal. Não criemos expectativas e as surpresas falarão por si próprias. E quem for se depilar aí, lembre-se: a segunda parte dói mais. Converse com sua depiladora durante o processo #ficadica.

 



Escrito por Joceline Gomes às 14h23
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Diário de bordo 3

Adivinha quem casou?

Pois é, casei. E foi o dia mais feliz da minha vida. Sei que é clichê, mas é verdade. Depois de meses planejando, pagando, cancelando, pedindo, ligando, escrevendo e-mails e etc, ver tudo aquilo acontecendo é realmente sensacional. Uma experiência única, maravilhosa e emocionante.

Casei no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Cruz, num sítio significativamente chamado “Esperança”. Até as coincidências pareciam combinadas... O nosso “grande dia” foi um domingo. À tarde. Sob 38º. Eu que já não sei fazer maquiagem, pedi à minha amiga fazer. Mas ela fazia e eu suava. Ela retocava e eu suava. O ventilador ligado e eu suando. Isso porque nem estava com o vestido ainda. Detalhe: eram 11 pessoas pra tomar banho e se arrumar em duas horas, com dois banheiros. Eu fui a última da fila, quando todo mundo já estava pronto, só esperando o carro chegar e levar para o Sítio. Fiquei pronta pontualmente 10 para as quatro – horário marcado para o casamento. Liguei pro meu marido (legal dizer isso ^^) mandar o carro me buscar. “O pneu do carro que trazia o padre furou, ele ainda não chegou. Ah, a fotógrafa ainda não chegou também”. Uhuulll.

Quem me conhece sabe. Passei os últimos seis meses falando: “vou ser pontual hein? Não vai ter dessa de atraso da noiva coisa nenhuma.” E de fato a noiva não atrasou. A noiva estava sentada na varanda, com a mãe e a amiga, esperando meu marido ligar dizendo que tinha terminado o ensaio com o padre e que a fotógrafa estava a postos. Mas isso só aconteceu às 17h. Eu fiquei tão puta, tão nervosa, que minha mãe não teve outra saída se não oferecer: quer um chocolatinho para acalmar? Tenho fotos me esbaldando no Sonho de Valsa.

Mas enfim, a caminho do sítio, a raiva já foi esquecida e se transformou num momento “ai meu Deus, ai meu Deus” misto de emoção, ansiedade e vontade de chegar logo. Parecia que meu casamento seria num “amanhã” que nunca chegava. Finalmente, avistei o portão do sítio. E meu marido lá na porta. Alguém deve ter falado pra ele “vai pra lá que eles vão entrar”. E ele foi. O carro entrou de ré e eu fiquei derretendo dentro do carro, enquanto minha mãe e minha amiga foram fazer companhia aos convidados. Ainda demorou alguns minutos, a fotógrafa me pediu pra fazer umas poses como se eu estivesse saindo do carro, e então começou. A música Love, de Kirk Franklin, foi a escolhida para a entrada do noivo e dos padrinhos. Nessa parte eu já tive um meio enfarte. Comecei a querer chorar, mas me segurava. Até que o tio do meu marido entrou no carro e falou: “Vamos lá”. Pronto. Comecei a tremer. O carro me deixou de frente para o corredor de flores, com o tapete vermelho, e avisei, apressada, ao meu irmão: “troca a música, troca a música”. Latika’s Song, da trilha sonora de Quem quer ser um milionário, me arrepiou inteira. Quando desci do carro, meu irmão pegou meu braço, minha mãe pousou a mão no meu ombro esquerdo (não tinha espaço pra eles dois irem ao meu lado no tapete), quis desabar no choro. Mas me segurei. Daí todas as minhas caretas nas fotos do desfile até o altar.

Não existia mais ninguém ali. As pessoas pareciam parte da decoração. Eu só conseguia enxergar ele lá no altar. Quando olhava para meu marido, também emocionado, também tentando conter lágrimas de felicidade, aí mesmo que queria chorar. Mas ficamos naquilo, nos fitando mutuamente até o momento em que, depois de cumprimentar minha mãe e meu irmão, ele me deu a mão, me conduziu ao altar e disse baixinho: “já pode beijar agora?” Rimos. E então ouvimos os ruídos emitidos pelos nossos quase 50 convidados se recompondo após nossa emocionante entrada. Todos os nossos convidados se emocionaram, e isso só tornou nosso casamento ainda mais íntimo. Todos compartilhamos aquele momento.

A cerimônia foi toda linda. Ninguém sofreu. A não ser com o calor, ninguém sofreu com o tempo de duração (menos de uma hora), nem com horas nos salões de beleza, nem com uma roupa desconfortável. Todos estavam à vontade, vestindo suas roupas comuns, como jeans, saias, vestidos floridos, sandálias rasteiras, e todos estavam, sobretudo, felizes por estar ali. Não tinha criança obrigada a usar a roupa alugada de daminha, nem parente de décimo grau devendo dinheiro. Estava lá quem queria estar conosco, quem pode estar. Não julgo quem não foi, até porque, nem todos os meus amigos de Brasília podiam comprar passagens e ficar fora por um final de semana, voltando domingo a noite ou mesmo segunda de manhã para casa. Ainda sobre os convidados, uma frase que li num blog de casamentos e nunca esqueci foi: “Casamento não é política. Convide apenas quem você realmente quer que esteja lá.” E assim foi.

A cerimônia foi linda e o padre fez um sermão que começava assim: A vida é arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida. Ele foi demais! Foi tudo perfeito. Repetindo o clichê, realmente foi o dia mais feliz da minha vida. E o meu marido disse que foi da dele também. Foi também o dia em que me senti mais linda e vigiada. O vestido da noiva é a grande novidade da caminhada até o altar. Depois disso, o tema é “como ela vai dançar com isso?” Minha escolha foi ótima, pois meu vestido, apesar de longo, não tinha cauda, nem véu, nem arrastava no chão. Pude circular à vontade e dançar sem problemas.

Bom, depois da cerimônia, posamos pra fotos sozinhos e com os convidados. Aquele momento modelo que eu nunca achei que teria. Mas foi muito legal. Ainda mais com o meu marido ao meu lado, me fazendo sorrir daquela maneira que só ele sabe. Nossas fotos estão bem naturais, os sorrisos, espontâneos, e até as poses mais artificiais nós conseguimos dar um toque todo nosso. O calor já estava diminuindo e o sol se pondo. A iluminação ficou muito romântica.

Depois das fotos, cortamos o bolo e fizemos nossa primeira dança, ao som de Leaving on a jet plane – bem significativo para um namoro à distância. O curioso é que combinamos milhões de músicas para essa dança, desde Lauryn Hill, passando por Nana Caymmi, até The Cranberries, mas, no final, fomos pra pista e dançamos o que estava tocando. Sem ninguém olhar. Foi um momento só nosso. Lindo. De conexão total com nossa história e sua transformação diante da nova fase de nossas vidas que estávamos inaugurando ali. Após aquele momento mágico, em que me senti como a Fiona se transformando finalmente em sua “forma do amor verdadeiro”, chamamos todo mundo pra dançar.

Ficamos na pista até umas 10 da noite, quando joguei o buquet e duas mulheres pegaram – uma amiga do noivo e uma amiga da noiva. A primeira ficou com mais da metade e a segunda pegou três florezinhas. Mesmo assim, é sinal de sorte, afinal, o buquet era de flores naturais e tava cheio de boas energias. Depois disso os convidados começaram a ir embora e a festa acabou.

Eu me perguntava, e ainda tem pessoas que me perguntam, “pra quê casar?” Eu não tinha a resposta pra essa pergunta antes de conhecer o meu marido. Eu não acreditava em muita coisa que hoje eu acredito. Não achava ser possível sentir muita coisa que hoje eu sinto. As pessoas se casam porque querem dormir e acordar todos os dias ao lado daquela pessoa; ter a visão daquele sorriso pelo máximo de tempo possível, e, melhor, ser motivo para aquela pessoa sorrir. As pessoas se casam porque se amam, e permanecerem juntas é o melhor que elas podem fazer pra isso continuar assim. Só sei que, naquele domingo, eu me senti a mulher mais linda e mais amada do mundo. E meu marido faz eu me sentir assim todos os dias. Talvez seja por isso que as pessoas se casam, afinal.

Meu relacionamento começou neste blog (longa história), e nada mais justo do que, também nesse blog, eu registrar esse momento, sobre aquele domingo, onde eu também entrei para a lista de eventos da família.



Escrito por Joceline Gomes às 20h17
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Tudo isso junto

A vida em movimento, mesmo estando parada

Semana de natal e ano novo na empresa. Das doze pessoas que deveriam estar aqui, tem três. A caixa de entrada do e-mail institucional? Parada. O telefone? Não toca. Pessoas entrando e saindo da sala? Não tem. Tudo parado. Tudo te força a ficar parado. Quieto. Pensando no ano que acaba e leva com ele coisas boas e ruins para uma lembrança fadada a iniciar ou terminar com “no ano passado”.

Antigamente, quando as pessoas não tinham nada para fazer, elas ficavam nas janelas, observando o movimento das ruas e comentando sobre os passantes. Comentando, leia-se: falando mal da vida alheia. Hoje, me flagrei com as mãos no queixo (como aquelas estátuas de interior que substituem pessoas reais que já estiveram naquela janela), olhando uma tela de computador inerte, sem informações novas nem logo do Windows passando no protetor de tela. Nada. Parada. E eu esperando alguma coisa acontecer. Mas nada acontecia. A não ser que me flagrei e fiquei com vergonha de mim mesma, de desperdiçar meu tempo diante de uma tela de computador parada enquanto tem uma vida inteira acontecendo lá fora. De ficar diante de uma tela de computador parada enquanto poderia estar lendo um livro. De ficar aqui, esperando algo, enquanto ideias e sentimentos fervem dentro de mim a ponto de meu coração bater descompassado.

Certa vez, ouvi uma amiga dizer que aquele jogo do copo, ou da caneta, que um suposto espírito guia a mão da pessoa para as respostas “sim” ou “não”, que todo mundo (menos eu) brincava quando era criança, era uma farsa. (ooooooohhh) Ela explicou: “é impossível você estar totalmente parado, sendo apenas guiado por uma força ou por outra pessoa. Seu coração bate, você respira, tem sangue circulando nas suas veias, você tem uma energia vital que é só sua e que circula a sua volta, tudo isso junto faz você se mexer, mesmo parado. Não é o “espírito” que guia sua mão. É você mesmo que está se mexendo na direção que tudo isso junto está indo.” Fiquei com isso na cabeça por tanto tempo que veio parar nesse texto agora.

“Tudo isso junto” que se mexe dentro de mim me diz que não posso ficar parada. Mas aqui estou. Diante de um computador, de uma sala vazia, um andar abaixo do solo, observando o nada. Uma tela onde nada acontece, enquanto a vida acontece lá fora. Se está fazendo sol ou chovendo, pouco importa. A vida é lá fora. Onde coisas que se mexem por conta própria estão fazendo algo para não ficarem paradas. Foi a minha intenção ao iniciar esse texto. Que não sei exatamente a que propósito serve. De qualquer forma, serviu ao menos para me tirar do marasmo. Me mostrar que ainda tenho algum movimento, afinal, e não apenas a passividade de observar uma tela parada, mas de perceber que meus pensamentos também se mexem, e que se movem em direção a esta tela, até então parada, antes de receber “tudo isso junto” que eu escrevi agora. Algum movimento aconteceu, afinal. Como gosto de dizer: Keep moving!



Escrito por Joceline Gomes às 17h37
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Você tá dando muita importância à Internet...

Ouvi essa frase outro dia e parei pra pensar: é, talvez seja verdade. E nem é a importância que eu dava antigamente, de postar textos revoltados neste blog (coisa que não faço há bastaaaante tempo), mas sim uma importância exagerada para as redes sociais. São muitas, mas eu só tinha três: Orkut, Facebook e Twitter.

Pra quem não conhece, resuminho das três:

Orkut: Você posta fotos, vídeos, faz parte de comunidades, encontra amigos e grupos de interesse.

Facebook: Você posta fotos, vídeos, encontra amigos e grupos de interesse. Não é que não tenha comunidades, mas lá é outra coisa. Você “curte” determinada coisa e aí as pessoas ficam sabendo o que você “curtiu” porque aparece no seu perfil. Sinceramente, não sei bem como funciona o Facebook. Minha passagem por lá durou menos de quatro meses e saí de lá com o mesmo conhecimento de quando entrei: quase nenhum. Mas eu disse que iria fazer um resumo e aqui estou escrevendo um livro sobre ele. Resumindo: Facebook é um Orkut que ganhou fama internacional e inclusive um filme que tem o Justin Timberlake no elenco. Ou seja, é o primo rico das redes sociais.

Twitter: microblog onde você conta “o que está acontecendo” em 140 caracteres. A pergunta inicial era “o que você está fazendo”, mas aí o negócio virou um diário atualizado a cada trinta segundos com clássicos como “vou tomar banho” ou “tô com fome” e aí os donos do trem resolveram mudar. Mas isso não impede as pessoas de continuarem usando-o como um diário e continuarem escrevendo “os clássicos” a cada trinta segundos.

Bom, é isso. E eu tinha os três. Tinha: encerrei os dois primeiros. Realmente eu estava dando muita importância pra essas coisas e perdia muito do meu tempo (que já não é lá grandes coisas) presa nessas redes, com o perdão do trocadilho. No Twitter eu continuo porque gostei da ideia. Notícias atualizadíssimas em tempo real e com todo o sarcasmo que só jornalistas humoristas poderiam trazer pra mim: adoro. Pílulas de humor em 140 caracteres que me tiram da minha realidade por poucos segundos. Afinal, você não vai precisar de muito tempo pra ler (ou escrever) 140 caracteres. Não interrompe o seu trabalho e você recebe notícias em primeira mão. Perfect! E pra mim, que tenho o costume de falar em 90 linhas o que poderia dizer em 10, é sempre um desafio.

Enfim, so what? E esse texto é sobre o que? Exatamente sobre não se expor e não se deixar levar pelas “comodidades” das redes sociais. A princípio queremos participar de todas, e realmente achamos aquilo tudo muito importante, muito relevante. “Mas e como vou falar com meus amigos?” Eles têm seu e-mail, seu telefone, por onde podem conseguir seu endereço ou marcar um almoço para que você conte as novidades. Você não precisa postar fotos no Orkut a cada grande evento (ou a cada foto no espelho) e não precisa atualizar sua frase do Facebook pra dizer que vai viajar. As pessoas vão perceber que você não está por perto e vão deduzir. Enfim, viva mais, acesse menos. A Internet não perde nada sem você por todo lado. Mas você perde muito estando conectado 24 horas. Perde, principalmente, seu valioso tempo.

P.S: e não, eu não colocava frases de que ia viajar e não tirava fotos no espelho. Acho brega. #ficadica



Escrito por Joceline Gomes às 15h16
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Pesquisas linguísticas e as curvas de Brasília

A ciência não é isenta e eu sei onde moro

Uma das minhas professoras da pós graduação fez mestrado em lingüística e resolveu escrever um dicionário sobre os endereços de Brasília. São siglas que nem os próprios brasilienses sabem daonde vieram ou o que significam (me incluo). Por exemplo: SHCGN – Setor de Habitações Coletivas Geminadas Norte. Chique néam? Então, foi sobre isso a aula de hoje. Não importa sobre o que é a minha pós. A aula foi muito interessante, muitas revelações históricas e curiosidades que eu nunca soube na escola. O “avião” de Brasília não tem nada a ver com um avião. Era uma cruz. Simétrica. Maaaas se a cidade fosse simétrica, reta, o escoamento da água da chuva seria muito ruim e poderia causar alagamentos. Então fizeram aquela inclinada charmosa que as pessoas começaram a chamar de avião, e que o Congresso seria a cabeça do piloto, asa sul e norte, e o rabo do avião e uatchatcha... lendas urbanas na cidade da Legião Urbana.

Sobre a palavra “Brasília” entendo a confusão quando digo que não moro em Brasília, moro em Samambaia. Segundo a professora: Brasília pode ser usada para dois significados – Região Administrativa número I do Distrito Federal oooooou Brasília como o próprio Distrito Federal, não importa qual cidade satélite você esteja. (já expliquei sobre cidade satélite em algum ponto desse texto, clique aqui pra lê-lo).

Brasília é uma cidade tão singular que nem a educação formal dá conta de explicar direito sua origem e estrutura. Uma das maiores confusões feitas na escola e entre os moradores é sobre, afinal, o que é e o que constitui o Plano Piloto. Uma luz vai brilhar agora: Plano Piloto não é só Asa Sul e Asa Norte. Incluem-se também: Candangolândia, Cruzeiro, Setor Militar Urbano, Octogonal, Sudoeste e o super bairro de apartamentos de um milhão de reais, o Noroeste. Sim, eu descobri isso hoje. Sim, eu nasci e cresci em Brasília.

Mas isso não foi a coisa que mais me chocou na aula. Foram outras duas coisas. Vou numerá-las e discuti-las em tópicos pra não me perder nas minhas divagações (que são muitas).

1)      Saindo da Rodoviária do Plano Piloto (ou chegando) de ônibus, você vai passar por uma curva um tanto quanto grande, que dá pra ver toda a Esplanada dos Ministérios, inclusive o Congresso. “A poesia que Lúcio Costa usa pra explicar essa curva é fascinante: é para que as pessoas que estiverem chegando ou saindo de Brasília [cidade] deem uma olhadinha no poder.” Gente, não agüentei! Tive que rir e fazer um comentário: “Olhadinha no poder?? Ah sim, dá uma olhadinha e pode fazer a curva de volta pra sua terra, seu pobre!” O humor é realmente a ferramenta mais útil para se fazer uma crítica social. Ninguém ri porque é engraçado, mas porque, infelizmente, é verdade. Quem faz aquela curva está entrando ou saindo da rodoviária: lugar mais podre, fedido e com concentração de mendigos e usuários de drogas por metro quadrado (vide fantástico: crack chega a Brasília). Sem contar que quem não tem carro tem que esperar às vezes por horas pra pegar um ônibus lotado, quebrado, sujo e velho. Mas quando você estiver chegando ou saindo, você pode dar uma “olhadinha no poder” e ficar feliz de morar em Brasília. Faça-me o favor, né? Lúcio Costa deve ter tido a melhor das intenções, com certeza. Ele não esperava que Brasília tivesse em dez anos a quantidade de pessoas prevista para 50. Muitos carros, poucas calçadas... Brasília não é cidade para passear a pé. Dizem inclusive que o brasiliense se divide em cabeça, tronco, membros e rodas. As minhas são de um ônibus sempre lotado, quebrado... o resto vocês sabem.

2)      O Setor Habitacional Coletivo Área Octogonal Sul (SHCAOS – adorei essa sigla!), conhecido por aqui apenas como Octogonal, “apresenta uma redução na sigla, que chega a ser AOS para alguns moradores. Mesmo com essa redução na sigla, e no modo de falar, pronunciando apenas uma das palavras formadoras da sigla, ninguém faz a redução extrema na sigla a ponto de falar apenas a letra O de Octogonal. Ninguém fala: Moro no Setor O, até porque, aqui no DF, Setor O já denomina outro lugar, que fica na Ceilândia”, disse a professora. No slide que ela apresentou, lia-se: “(...) Setor O, na Ceilândia, que muitos moradores já dizem ‘moro no O’”. Tive que perguntar: “Professora, a senhora realmente já encontra esse registro oral??? ‘Moro no O’??” Ela: “Sim”. Eu: “Professora, desculpa, mas eu sinceramente nunca ouvi nada parecido. Aqui no Plano Piloto é comum as pessoas dizerem: ‘Moro no M’, ‘Moro no J’, porque são os blocos, mas quem mora no Setor O diz ‘Setor O’ mesmo. A mesma coisa é quem mora na M Norte, que diz ‘moro na M Norte’, porque ‘moro no M’ é bloco M, no Plano. Então a professora replicou, com base na sua pesquisa: “Não, mas as pessoas já estão dizendo assim mesmo. Eu ouvi moradores de Samambaia dizerem isso”. Ahhh, para né, professora?? O SETOR O É NA CEILÂNDIA!!!!! (interrompo o texto para ficar muito nervosa, sem saber o que escrever a respeito)

Ah sim, esqueci de esclarecer o que é Setor O e M Norte. São simplesmente os bairros mais estigmatizados do Distrito Federal inteiro. Na verdade, segundo o universo paralelo que existe após entrar no Centro Universitário onde faço essa pós, qualquer lugar que não seja Plano Piloto é estigmatizado. “Nossa, Cruzeiro é Plano Piloto?? Não sabia...” Tem que desenhar...

A ciência não é isenta de nada, como diria uma outra professora. Essa da pesquisa de Brasília ficou tão obsecada em Brasília (onde ela mora, inclusive) que sequer sabe onde fica o Setor O, mesmo tendo “ouvido e entrevistado pessoas que falam assim”.

Brasília sempre teve esse abismo social, esse cordão sanitário dividindo o Plano Piloto do resto. Resto mesmo. Que não merece transporte público de qualidade, sequer respeito ao local onde moram. Outra me vem com uma: em Samambaia já tem superquadra (lugar onde tem tudo, como se fosse uma mini-cidade). Tive que comentar: “eu moro em Samambaia há uns 15 anos. Não existe superquadra lá”. Querem falar do lugar onde você vive com mais propriedade que você! Eu sei onde moro, sei daonde vim, sei pra onde eu vou, e não é pesquisa nenhuma que vai me dizer como os meus familiares falam, como a minha cidade é.

Samambaia não é favela, Setor O não é tão violento quanto pintam, M Norte não é cidade dormitório. Todas são cidades muito independentes e tranqüilas para se viver, mas que, quem vive no Plano Piloto, sequer sabe onde ficam.

Eu descobri hoje as cidades que compõem o Plano Piloto. Que tal vocês, que moram lá, descobrirem quais cidades compõem o restante do Distrito Federal?

 

P.S: Parabéns a Brasília (cidade e DF), que consegue, mesmo com toda essa desigualdade, ser um ótimo lugar para se viver.



Escrito por Joceline Gomes às 18h57
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O marido rico e o discurso feminista

Fila da Marisa, algum dia da semana passada, alguma hora perto do almoço [essas informações realmente não são importantes, logo, não ligue para elas]. Estou lá,  com a fatura de uma compra parcelada em três vezes na mão, esperando ser atendida, quando chega um casal atrás de mim. Pela visão panorâmica (aquela que quase não tenho, pois sou míope) percebo que se trata de um senhor bem idoso (cabelos bem grisalhos e uma barriguinha de muitos anos de chopp) e uma mulher jovem, loira, alta, magra e bem vestida. Vocês podem pensar que eu fiz um filtro devido à minha formação feminista etc, mas tento reproduzir esse momento com o máximo de fidedignidade possível. Nunca usei a palavra “fidedignidade”,  daí vocês já veem que estou falando sério. Se eu não tivesse ouvido tudo que escreverei, eu também não acreditaria. Na verdade, até acreditaria. Basta a seguinte informação: em um shopping de Brasília... Segue diálogo:

Senhorzinho: Ai amorzinho que bom que eu vim me encontrar com você hoje, né? Se não, você não poderia comprar isso aí. (isso aí = par de meias calças que a jovem segurava e virava e voltava e virava)

Loira: é, que bom (virando a meia calça todo o tempo, sem contato visual com o senhorzinho). Sabe o que eu estava pensando? (agora faz contato visual) Por que você não volta a me dar um dinheiro todo mês, como a gente fazia antes? Assim eu não preciso te chamar toda vez que eu quiser comprar alguma coisa, né?

Senhorzinho: Porque não funcionou, amorzinho. Lembra, que eu te entregava um dinheiro por mês e ele sempre acabava em uma semana, e você me ligava (começa a rir enquanto fala) dizendo: “amor, achei um sapato lindo aqui, estourou o limite, você completa pra mim?” Lembra?

Loira: ah, é verdade.

[prefiro não comentar]

Nesse momento chega uma senhora e fica no final da fila (depois do casal “novela das 9”), mas logo libera um caixa e ela corre lá, apresentando carteirinha de maior de 65 anos. A próxima da fila deveria ser eu, mas quem ficou emputecida com essa história foi a loira vulgo “amorzinho”.

Amorzinho diz: Agora é assim é? Chama a próxima e quem está no fim da fila vai ser atendida antes de todo mundo????!!!!

Senhorzinho sem apelido diz: Calma, amorzinho, ela deve ter algum problema.

“Problema” é ótima... Enfim, me chamaram. Mas a essa altura eu já estava rindo comigo mesma enquanto olhava pra eles com aquela cara de “aff”. Então, eles foram chamados. Mas ela é como o Datena, não cansa de reclamar.

Amorzinho diz: Vem cá [desconfie de quem pede sua atenção desta maneira, principalmente quando seguido por “minha filha”], quem chega agora e tá no final da fila, é atendido na frente de todo mundo??!!

Caixa diz: [cara de “dooolll”] Ela era prioridade, senhora, apresentou até a carteirinha.

Amorzinho diz: Ah ta.

Vontade de dizer: vishhhhh, vishhhh. Mas, como eu já saí da oitava série há... há um bom tempo, preferi continuar pagando minhas contas (ai que frase adultinha). Como o casal Manoel Carlos pagou “em cash”, o processo foi mais rápido e eles (finalmente) foram embora, com o senhorzinho repetindo: “vamos almoçar juntos, amorzinho? Hein? Vamos almoçar?”. Nisso, as duas caixas se entreolharam e soltaram aquele sorriso “ai ai viu”, que eu retribuí prontamente para a caixa que estava me atendendo.

São situações assim que me fazem acreditar no poder do feminismo. Aí você me diz: ahn, como assim? A idéia do feminismo não é que as mulheres sejam independentes financeiramente etc? Sim, a intenção já foi essa, mas o principal conceito do feminismo é que a mulher não deve ser refém de nada, e deve ter seu poder de escolha respeitado para qualquer situação. “Amorzinho” optou por ser bancada pelo marido rico. Eu opto por estudar, trabalhar, e ter meu próprio dinheiro. Outras optam por casar antes dos 20 e fazer faculdade depois. Outras optam pela carreira política e pelo engajamento em movimentos sociais. Outras optam pelo aborto ou pela concepção. O importante é que: todas optam.

Ouvi esses dias de uma mulher que “o discurso do feminismo é perigoso”. É perigoso para quem?? “É radical demais, é combativo demais, acho que tudo tem nuance”. Sim, e quem discordou? Afirmar que a mulher tem poder de escolha é radical demais? Afirmar que “embaixatriz” é a esposa do embaixador, mas que não existe termo semelhante no masculino é radical ou fato? Afirmar que enquanto as “donas de casa” limpam, cozinham, passam e cuidam das crianças o “dono de casa” apenas detém a propriedade de uma moradia é radical ou fato? Que não existe “primeiro-cavalheiro” porque não se espera que uma mulher galgue o posto de presidente é radical ou fato?

A língua não é preconceituosa. As pessoas de uma determinada cultura são. E esse preconceito passa para a língua. A ausência desses termos no masculino me inquietam profundamente, e não, não acho meu discurso perigoso. Perigoso, para mim, é achar que ao falar isso você está sendo “liberal” ou “moderninha”. Perigoso, para mim, é achar que esse pensamento é teu, é original, quando na verdade existe toda uma estrutura te preparando para pensar assim. Perigoso, para mim, é não reconhecer que hoje você tem o direito de estar divorciada, de trabalhar, de estudar numa universidade porque essas “radicais” disseram que as mulheres deveriam ter direito a isso um dia. Perigoso, para mim, é acreditar que o discurso feminista é perigoso, enquanto milhares de mulheres são assassinadas, massacradas, mutiladas, humilhadas pelo simples fato de ser mulher. Sorte que o Brasil não tem isso. Mas ainda temos muito o que melhorar.

As conquistas feministas foram grandes, mas só o fato do discurso do “perigoso” permanecer por aí já demonstra o quão deturpada está a imagem do movimento feminista na sociedade. É isso que os detentores do poder querem: que tudo permaneça exatamente como está. E você, é isso que você deseja? O mundo está bom como está? Se eu ganhasse o quanto essa mulher ganha, se eu trabalhasse as poucas horas que essa mulher trabalha, se eu trocasse de carro a cada semestre como ela troca, talvez, pra mim, as coisas estariam bem até demais. Perigoso esse pensamento, não?



Escrito por Joceline Gomes às 17h56
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Diário de bordo 2

O casamento foi há três anos. Já terminou, inclusive. Mas pra quem pensa que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar eu respondo: um não, mas dois podem cair. E na mesma igreja, com os mesmos problemas no flash.

 

Saí do trabalho, peguei o ônibus errado, peguei o ônibus certo e desci na parada que a “moça que pega o ônibus todo dia desce”. Dessa vez começou mais tarde porque eu tinha que trabalhar, mas começou. E terminou mais ou menos da mesma maneira que terminou da última vez. O casamento já acabou, mas os filhos crescem, e ainda querem festas de quinze anos. Ela é minha prima, não minha irmã. Se fosse irmã eu iria dar um jeito de convencê-la do contrário. Mas enfim, o processo já começou e eu fui convidada a participar do resultado. Con-vi-da-da. Honra né? Não deve ser como da última vez. Então vambora.

Chegando lá vejo uma menina que vi há três anos, pequena e magrinha, já grandona, peitudona, num vestido branco de babados e apontando pra um bebê: “olha, é minha filhota”. “Ah, sim, oi tudo bem?” Cumprimenta antes, né? Mas se você acha tão importante me dizer que foi mãe aos quinze anos, tudo bem também. E não, ela não era minha prima. Era a irmã por parte de pai da minha prima. Longa história. Ainda colocando o pé esquerdo pra dentro da casa, vejo minha prima num vestido azul... azul... Azul. Muito azul. Não tem descrição para aquela cor. Bastante azul mesmo. Com miçangas, e babados, e brilhantes, e bijus. Assustador. Cabelos, maquiagens, e luvas e um comportamento muito estranho. Depois que elas duas ficavam em pé, elas não conseguiam mais sentar. E aí se alguém esbarrava nelas, elas ficam com medo de cair, como se estivessem com uma madeira nas costas. Ou melhor, como se estivessem de salto alto. Sabe desenho animado que quando está à beira de um precipício fica balançando os braços pra não cair? Pois é, assim. Todas essas emoções e eu na porta ainda. Com medo, entrei.

No corredor que leva da sala a um dos quartos, vem minha tia (tadinha da minha tia): “levei uma queda inda gora... escorreguei aqui e fui até lá, bati o cotovelo, o joelho...” Muita informação pra quem acabou de chegar do trabalho. Finalmente cheguei ao quarto, troquei de roupa, estava pronta. Elas também estavam prontas. Todo mundo tava pronto. Já eram 9 horas e a festa/culto/celebração/comemoração/homenagem de 15 anos estava marcada para as 8. (não sei definir o que aconteceu, era evangélico e pronto). Ok, não é comigo, eu já cheguei atrasada mesmo, fiquei quieta. Mas o que estávamos esperando afinal? Não sei. Só sei que nesse intervalo ouvi o que temia: “você trouxe sua câmera?” “Não” (Em off: pensei que tinha sido convidada pra festa/etc, não pra ser fotógrafa de novo) “Filha, pega sua câmera e dá pra Joce, ela vai tirar as fotos”. Nãaaaaaaaaao. De novo não!!! Ok, ta bom, resignação. Raios caem quantas vezes quiserem, no lugar que quiserem, e você não pode fazer nada a não ser se desviar pra não ser na sua cabeça.

O que ainda estávamos esperando mesmo? Um carro para nos levar pra igreja. “A gente vai andando mesmo gente, mas que frescura, é bem aqui perto!”, minha mãe, maravilhosa como sempre, botando ordem e tentando simplificar as coisas. “Não, ta todo mundo arrumado, ta chegando um carro aí pra levar vocês e levar elas depois”. Tá... então estaciona uma Kombi escrito “nunseiquelá cargo – transporte de cargas”. “Vamo gente, a gente vai levar vocês, vocês não vão andando”. Ok. À noite, chovendo, vestido, M Norte, quatro mulheres. Uma Kombi não parecia uma idéia ruim. Mas como é pra transporte de cargas, ela não tem bancos. Entende? Fomos em pé nos segurando nos bancos da frente. Vamos lá... A Kombi não ligava. Chave na ignição, aquele barulho de “não vou pegar hehe”, e morria. Cinco vezes. Eu dou a idéia: vamos a péee, tem problema nãaao. “Nãaaao, é só descer e empurrar que pega”. Ah sim, melhor ainda né? Desceram o motorista, e a passageira do banco da frente (outra prima) e começaram a empurrar. Veio um outro cara lá da rua e ajudou. A kombi pegou e começou a andar. E minha prima e o marido dela começaram a correr, tentando entrar. “Corre Marília, vem!” E eu tive aquele momento Pequena Miss Sunshine numa noite de segunda.

Ok, chegamos na igreja. Muitos “ta bonita, ta magra, tira uma foto minha, tira outra, senta aqui, tira outra, já viu fulana, já viu beltrana, essa é fulana, filha da beltrana, lembra dela?” depois, fui ver um quadro de fotos da aniversariante. Gente... sério... o que era eu???? Tinha umas fotos minhas impublicáveis! Eu sempre estava perto da mesa da aniversariante e sempre com aquela cara de “vai, corta logo esse bolo”. Eu e meu óculos imenso, meu cabelo imenso, minha pança imensa e minha boca imensa (sempre aberta, gritando alguma coisa nas fotos). Enfim, melhorei bastante de lá pra cá.

Mas o momento top da noite foi: o filho de um primo (tenho muitos primos que tem muitos filhos) estava colado atrás da mãe dele. E mãe dele estava organizando a festa/comemoração/etc. E ele atrás. Então a mãe dele virou, e com muita raiva disse: “Meu filho, pelo amor de Deus, sai de trás de mim, vai encher o saco de outra pessoa, vai encher o saco da sua prima Joce aqui, vai.” E eu com aquela cara de “eu?” Ele vem pra mim e diz: “Ahhh, você que é a Joce.” “Sim. Er... desculpa, esqueci seu nome.” “Esqueceu? Não acredito que você esqueceu meu nome...” “Er... João!” “Sim, João... o quê?” “Er... Gabriel?” “Não (desapontamento) João Vitor” “Ah, sim, mas eu acertei o João, viu?” (deu de ombros) “Quer tirar uma foto, João Vitor?” “Não” E ele volta pra trás da mãe, que estava andando pra trás e tropeça nele. Com mais raiva ainda ela vira e fala: “João Vitor, sai de trás de mim, meu filho!!! Eu vou tropeçar em você e vou cair!! Mas que saco!!” Todos ficaram super constrangidos com a reprimenda. Mas num toque de sarcasmo fenomenal, ele simplesmente se virou e sorriu aquele sorriso de “hehe, tô nem aí” enquanto a mãe o empurrava pra mim.

João Vitor ainda deu muito trabalho na noite. Ele seria o primeiro a entrar na igreja, com uma bíblia nas mãos Ele andava com pressa e com uma cara de tédio que um adulto só faz em palestras motivacionais e amigo oculto da empresa. Ele teve que repetir o gesto cinco vezes. Cada uma pior do que a outra. Ele foi a diversão da minha noite. Adorei aquelas fotos. E então começa a festa/culto/etc. Entra as daminhas acompanhadas dos... er... tá, o nome não é daminhas e eu não sei o nome dos garotos que entram com elas. Todo mundo entrou. E aí entrou a minha prima. Com uma cara feia, mal humorada, como se estivesse sendo obrigada a participar da festa que ela fez tanta questão de ter. Ótimas fotos também. Bem naturais.

A câmera, a exemplo da última vez, também me deixou na mão. Com flash, estourava no “tudo absolutamente tudo” branco do local. Sem flash ficava tremido. O jeito era improvisar um tripé e torcer pra dar certo. Levanta, senta, entra, sai, João Vitor tinha que entrar de novo e sentar ao lado da daminha, e ele não sentava (adoro João Vitor). Ótimas fotos. O pastor falava “Deuso, Doisi, Seisi” e eu em meu profissionalismo tinha que fotografar sem sorrir. Mais “fotoso” tremidas. Acabou. Vamos comer!

Nunca levei bronca de comer coisas fora da hora nas festas quando era criança. Aos 22 anos levei. Tinha umas jujubas lá dando mole e eu queria doce (depois de muitas coxinhas e pastelzinhos), fui pegar na malemolência, eu e outro primo, aí veio uma tia sabe-se lá daonde e disse: “Ei, não pode não, é pras crianças.” Oi? Festa de quinze anos? Eu como até a mesa se eu quiser porque essa festa não é pra crianças, sua tosca! Claro que não disse isso. Mas pensei. Mas tinha muito mais criança do que qualquer coisa ali. Como em tudo da minha família. Nossa taxa de natalidade é extremamente alta. Maior do que a dos países africanos.

Enfim, minha mãe queria saber como voltaríamos pra casa. E eu também. Mas eu estava ocupada querendo saber para onde tinham levado as jujubas. Ela foi mais inteligente e pediu carona. Ok, canta parabéns, corta bolo, e lá estavam elas... as jujubas! Eram colocadas nos pratos junto com o bolo. Eu pedi extra no meu prato, em detrimento do chocolate. Promessa, longa história. Ainda comendo bolo, nossa carona estava partindo. Sete pessoas em um carro, comendo bolo. E lá vamos nós pra casa. Chegamos em casa 23:50, quase o mesmo horário da última vez. E mais uma aventura familiar vai parar no meu blog. Ainda bem que só se faz quinze anos uma vez na vida... já casamentos...



Escrito por Joceline Gomes às 16h23
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Oi, tudo bem?


Uma pergunta, um cumprimento, uma afirmação, uma mentira, ou quê?

 

Assim como as frases absurdas de placas e revistas, a comunicação verbal também me chama muito a atenção, eu diria até mais do que a escrita. Esses dias estive pensando naqueles diálogos rápidos que temos quando estamos andando na direção contrária a um conhecido, geralmente com pressa, e pra mostrar uma certa educação ou só pra falar com a pessoa mesmo soltamos um "oi, tudo bem?". A pessoa, geralmente, responde "oi, tudo bem" ou então, num comportamento "espelho" ela responde antes de você terminar a sua frase com um "oi, tudo bem?" Sim, a pessoa responde com uma pergunta - a mesma que você fez. E aí ninguém responde. As pessoas apenas seguem seus caminhos com aquela sensação de "que bom que está tudo bem com o fulano". Ou não. Nem pensam a respeito.

Falando sério, você já respondeu um "oi, tudo bem?" com um "não, cara, não tá tudo bem, perdi meu emprego, terminei meu namoro, tô mal nos estudos e tô sem grana"? MSN não conta porque é outra dinâmica. Tô perguntando daquele momento às 13:15 da tarde, quando era pra você estar às 13h no novo emprego e passa um conhecido na rua e te pergunta "tudo bem"? O que você faz? Conta a história de como você estava triste e conseguiu o novo trampo ou segue em frente a passos de Usain Bolt? Acredito que é inconsciente. Em algum momento da nossa criação brasileira nós aprendemos que isso não é uma pergunta. É um cumprimento. É o mesmo que só dizer "oi", "olá" e afins. E não respondemos.

Ultimamente fiquei nessa lombra com todo mundo que via. Eles perguntavam "oi tudo bem?" e eu perguntava de volta. Apenas as pessoas mais velhas respondem. Com frequência a resposta era "tudo ótimo, minha filha, e você?" e aí por instinto eu respondia "tudo bem também" mesmo que não estivesse. Aí parei pra pensar porque isso era estranho pra mim.

Eu acreditava que estivesse mentindo, tentando manter as aparências, esconder a realidade e outras teorias da conspiração, mas na verdade mesmo, ao responder que está tudo bem você está apenas se protegendo de perguntas indesejadas como "pooxa, de novo??", "ihhh, foi demitida é??" "tá precisando estudar hein??". Constrangedor né? Nem todo mundo precisa ficar olhando pra dentro da fossa que você se meteu. Quanto menos platéia, menos funda ela parece.

Saída da fossa, você quer que as pessoas te perguntem se está tudo bem. Só pra você responder com a boca cheia de dentes que está tudo ótimo, lindo e maravilhoso, como diz minha mãe. Aliás, minha mãe tem uma outra teoria para o "oi tudo bem". "Tem que falar que está bom pra melhorar". "O Segredo", pensamento positivo, coisas boas atraem coisas boas e uatchatchas. O fato é que tem uma música da banda Garotos Podres que mostra bem como poderia ser a conversa rápida no meio do caminho se alguém decidisse de fato responder à pergunta e falar como está se sentindo. Curte só:

 

- Oi, tudo bem?
- Tudo Bem...
...Fora o tédio que me consome,
todas as 24 horas do dia,
fora a decepção de ontem a decepção de hoje,
e a desesperança crônica no amanhã,
tenho vontade de chorar,
raiva de não poder,
quero gritar até ficar rouco,
quero gritar até ficar louco,
isso sem contar com a ânsia de vômito,
reação a tal pergunta idiota
...Fora tudo isso, tudo bem.

 

E aí, tudo bem? Comigo tudo ótimo, lindo e maravilhoso. De verdade ^_^



Escrito por Joceline Gomes às 16h17
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Vamos fazer alguma coisa!

Esperar alguém fazer ou falar que vai fazer não vale


Quinta-feira. Cheguei à rodoviária do plano piloto, o lugar mais imundo e horroroso de Brasília, daonde dá pra ver o Congresso Federal e todos aqueles prédios tortos de cartão postal (e daí?). Estou esperando o segundo ônibus que me levará para o meu primeiro local de trabalho, já que trabalho em dois lugares. Aquele barulho... acentuado pela porcaria de música da Rádio Rodoviária, como se ser pobre e pegar dois ônibus pra ir trabalhar não fosse ruim o suficiente. Mas, cadê os ônibus?? Tá certo que a gente já tá acostumado a esperar o ônibus por uma hora e que ele não tem hora marcada, mas não tem quase nenhum aqui. Eis então que a música do Calypso é interrompida por um trio elétrico, apitos e gritos de guerra. É o Movimento dos Sem Terra (MST), que chegou a Brasília numa passeata para uma reunião com um ministro. Eu saberia o nome do ministro, do ministério, do responsável pela reunião, mas não procurei e nem vou procurar. Deve ter isso em todos os outros jornais que vocês estão acostumados a ler. Mas meu texto não é sobre a reunião, nem sobre o MST, nem sobre o ministério. É sobre manifestações populares.

Com a baixaria no Senado na semana passada, muita gente ficou indignada e quis “fazer alguma coisa”. Aham, e aí? Fizeram? Com os atos secretos do Sarney, com o mensalão, muita gente ficou indignada e... e aí, fizeram “alguma coisa”? Eu só acho engraçado. Acredito num mundo melhor, acredito em muita utopia que às vezes só eu acredito, mas acredito ainda mais que muita gente é utópica por conveniência. É conveniente chegar e falar “Pessoal, precisamos fazer alguma coisa pelo Brasil! Vamos às ruas...” e uatchatcha. Mas ir, ninguém vai. Nem eu vou. Não me orgulho de dizer isso, mas pelo menos não reforço esse “fazer alguma coisa” da boca pra fora. “Se reunirmos muitas pessoas, somos mais do que eles, vamos lá!” E chegando lá, vai fazer o quê? Quebrar tudo como o MST fez algum tempo atrás, serem presos, espancados e humilhados pela opinião pública (entenda-se, pela grande mídia)?

Qual manifestação popular realmente funcionou? Olha só, vou esclarecer, não estudo história, tive péssimos professores dessa disciplina durante minha trajetória escolar e não me recordo de todas as principais, logo, não me cobrem precisão e acompanhem meu raciocínio. Sintam-se livres para discordar ou acrescentar eventos. Mas vamos lá. O impeachment do Collor é o mais recente e emblemático deles. Porém, não foi a opinião pública, os caras pintadas, quem botou o cara pra fora. Foi o Congresso. E SÓ o Congresso. Pressionado pelo povo? Talvez. Mas cheio de interesses particulares do caras lá de dentro.

O Sarney veio antes do Collor, lembram? Nossa, não é que ele continua lá dentro até hoje?? E agora, como presidente do Senado! Ou seja, se o Lula morrer, o Alencar morrer, o presidente da Câmara não puder assumir, o Sarney vira Presidente de novo, sabiam? Até convocarem as próximas eleições. E se fizerem um golpe de estado e ele virar presidente para sempre? Impossível?? Honduras viveu isso recentemente. Golpes não são coisas de um passado remoto ou de um povo atrasado. Aliás, acreditar que podemos reunir o povo como podíamos na década de 80 ou 90 é que acredito ser um pouco atrasado.

O contra argumento é: hoje temos a internet, o Twitter, o Orkut, podemos reunir milhares de pessoas com um clique, repassando e-mails. E aí? Reuniram pessoas? Reuniram sim. Num shopping aqui em Brasília fizeram um tal de “Frozen Day”, algo assim, onde vários jovens foram para o shopping, e ficaram numa posição “congelada” por 10 minutos no pátio central do prédio. Dez minutos. Congelados. Exatamente como o país está há mais de 500 anos. Parado no tempo. Isso reuniu umas mil pessoas. Sem contar aquelas que viam o troço acontecendo e se juntavam só pra fazer graça com os amigos. E o “Fora Sarney” não reúne ninguém. O “luto pelo diploma de jornalismo” não reúne ninguém. A história do mensalão, ninguém. Eu também não estava lá. Não tô falando de uma “massa” invisível da qual não faço parte como a maioria dos acadêmicos. Eu não estava lá. Eu tava trabalhando, em dois empregos, estudando, me informando pra ser alguém com uma cabeça melhor na hora de votar. Só a educação salva. Só e somente. Manifestar-se ajuda a mostrar o que te inquieta, o que te incomoda, mas não muda absolutamente nada enquanto quem está na posição de mudar alguma coisa não se mexe.

Voltando ao MST, há quanto tempo esses caras existem, reunidos, como um movimento? Mais de dez anos. Mais de dez anos lutando, se manifestando, quebrando coisas, invadindo terras, dando entrevistas, exigindo a reforma agrária. O que eles conseguiram até agora? A MP da Grilagem, que, ao contrário do que eles queriam, não deu terra a quem não tinha, ao contrário, fez com que mais pessoas pudessem comprar terras na Amazônia. Se não entendeu é porque talvez eu não tenha explicado direito, procura no Google que é melhor. Procure as informações por conta própria ao invés de esperar “alguém” fazer “alguma coisa”. Se todos fizerem isso na hora de votar ao invés de esperar a nova pesquisa Ibope pra ver quem tá ganhando, teríamos melhores representantes dentro da “casa do povo” não acham? Só eles podem de fato mudar alguma coisa. Mas só você pode colocá-los lá dentro. E aí, em quem você votou? No Clodovil? No Frank Aguiar? No Collor? Você acha que eles se importam se você quer tirar o Sarney? Você realmente acha? Em quem você vai votar no ano que vem?



Escrito por Joceline Gomes às 11h55
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Yes, eu falo palavrão

Também teriam dito no Senado, se pudesse...

Faz quase uma semana. Um barraco digno de novela mexicana no Senado Federal entre Fernando Collor, Pedro Simon, Arthur Virgilio e Renan Calheiros. Manoel Carlos não teria sequer pensado naquelas falas. Foi engraçado de se ver. Só evidenciou a baixaria que é aquele lugar e as pessoas que de lá fazem parte. Mas uma coisa me chamou a atenção. Em seu momento de ira, Collor disse a Simon: “sobre suas palavras, eu quero que o senhor as engula e as digira”.  Primeiro, eu acho que “digerir” não aceita esse modo verbal. Afinal, você não pode exigir que alguém “digira” alguma coisa... Mas posso estar errada.

Enfim, Manoel Carlos não teria pensado nessa palavra nem como nome de uma personagem do núcleo pobre da novela. Além disso, o que me fez refletir por algum tempo foi: Collor não queria mandar Simon “engolir e digerir” as palavras dele. Todo mundo sabe o que Collor teria dito se estivesse numa rodinha bar. “Ôo Simon, sabe o qui tu faz com essas palavras? Você pega elas e enfia no meio do olho do seu...” Fala se não é?? A cara de vilão do Castelo Rá-tim-bum que ele fez iria combinar certinho com essa pílula do “palavriado” popular.

Não, não tô aqui pra discutir se o Senado é uma palhaçada, se o povo de lá não tem moral, se tá tudo errado e nós devemos nos manifestar e levantar bandeiras e uatchatcha. Vou levar essa discussão surreal para outro nível. O que eu quero dizer é que um palavrão, nesse caso, seria mais esclarecedor do modo como o Ilustríssimo ladrão de poupanças, Collor, estava se sentindo.

Eu falo palavrão. Não tanto quanto algumas pessoas que conheço, não em todo lugar e em todas as situações, mas falo. E acho válido sabe? Não abusar, fala toda hora, usar como elogio, mas em alguns momentos somente um pesado e forte palavrão consegue expressar o que você realmente quer dizer. Palavrões são formas de expressão válidas que conseguem demonstrar a intensidade de um sentimento com mais clareza.

Por exemplo: uma coisa é você estar com raiva. Outra coisa é você estar puto. Tá, que puto deixou de ser palavrão há algum tempo (deixou?) e que não se fala isso na TV (desde quando isso é critério pra alguma coisa?) mas uma pessoa com raiva não sente tanta raiva quanto alguém que tá puto. Quando você tá com raiva você diz: “poxa, to com raiva...” quando você tá puto, você diz: “Porra, to puto pra caralho!!!” Quem tá mais emputecido??? Tem outros mil casos que poderia citar aqui como exemplos, mas acredito que vocês já entenderam o recado. Até porque, não quero baixar o nível do meu blog também né? Eu gosto desse espaço aqui pra caralho!!



Escrito por Joceline Gomes às 13h15
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Vergonha alheia

Sabe quando você sente vergonha pelos outros... eu sinto. Você também sente?

A cena é a seguinte: a pessoa cutuca a outra no ônibus e fala “Caaara, há quanto tempo!” A pessoa cutucada se vira e faz aquela cara “Te conheço?”. O cutucador, meio sem jeito, responde rapidamente “Desculpa, te confundi com um amigo meu” e sai de cabeça baixa, fingindo procurar um lugar melhor no fundo do coletivo. Nessa hora, as pessoas podem ter duas reações: rir silenciosa e controladamente ou ficar com vergonha pelo incidente como se fosse você mesmo que tivesse feito a confusão. Esta última reação também é conhecida como “vergonha alheia” e eu sinto isso o tempo todo.

Acredito que muita gente também já tenha sentido isso em situações diversas. É meio inexplicável, mas a gente sabe quando e por que acontece. É aquela hora que você evita olhar na direção do que está acontecendo ou mesmo sorrir para não constranger ainda mais os envolvidos. Afinal, você mesmo está muito constrangido. Você sente vergonha por eles. Daí o nome: vergonha alheia.

Filmes, peças teatrais, apresentações musicais, gente no ônibus, gente num casamento, gente, gente, gente. Onde tem muita gente, tem uma situação embaraçosa e eu tenho vergonha alheia. Assistindo CQC, sempre tem uma piada idiota – vergonha alheia. Flashdance tem uma cena que a garota fica se insinuando com a lagosta pro cara e uma loira chega – e eu sinto vergonha alheia. Numa entrevista em grupo para um estágio há anos, uma pessoa contou sua história triste de moça do interior enquanto os entrevistadores faziam aquela cara de “próximo” – e eu fiquei com vergonha alheia. Um cara deslocado leva um fora “elegante” na balada? Vergonha Alheia. No intervalo de uma peça, uma mulher entra no banheiro com uma fila de espera enorme e solta uma flatulência digna de carro de som. Na hora que ela saiu: vergonha alheia. A Turma do Didi, Zorra Total??? Noooossa, o título deveria ser Vergonha Alheia. Agora, se a mulher escorrega do salto, se falam baixaria no ônibus ou entram na sala errada, aí eu rio mesmo. Sem maldade. É só o humor urbano acontecendo, como em Os Normais. Saber essa diferença é importante até pra você saber a hora em que as pessoas sentirão vergonha alheia por você ou que apenas sorrirão pelas suas costas.

Vergonha alheia é profissional, intelectual, em ambientes com certo nível de seriedade ou que se propõem a isso. Aliás, só isso já é motivo pra vergonha alheia – as pessoas se levarem tão a sério. Por isso, da próxima vez que algo assim acontecer, não se faça de rogado (alguém ainda usa essa frase?), espere seu colega de trabalho estar sozinho, chegue de mansinho até ele, e fale baixo em tom complacente: Amigo... vergonha alheia naquela hora que você falou que o Brasil será uma potência até 2013... o jeito que os outros caras da reunião riram me deixaram tão constrangido quanto você. Apenas queria que você soubesse que compartilhamos esse momento.

Seu amigo vai ficar lisonjeado e agradecido! Até a auto-estima dele vai melhorar com isso. Afinal, depois de um momento assim, é comum as pessoas quererem se matar, se trancar em algum lugar, dormir eternamente ou fingir que tem o controle da situação enquanto estão gritando por dentro. Esse suporte fraternal é muito importante.

Logo, passe esse texto adiante. Muita gente precisa saber que existem pessoas que sentem vergonha alheia para que outros se sintam melhor em relação ao que disseram/fizeram/deixaram de fazer. Agora, não confunda. O elenco do Pânico na TV não precisa saber que vocês sentiram vergonha alheia por eles. Eles já sabem disso.



Escrito por Joceline Gomes às 15h07
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Eu e minhas brigas homéricas

É fácil falar bem de si mesmo na internet. Tente o contrário...

Sabem quem foi Homero? Um cara que escreveu um livro interminável e “consagrou o gênero épico”. Épico é um negócio cheio de aventuras e clímax e emoções mas que não acaba nunca. Ou seja, a palavra do dia é: eterno. Sabe o que é eterna? Minha mania de querer as coisas tão perfeitas que elas nunca ficam boas o suficiente. Estou trabalhando pra melhorar isso, mas, pra mim, parece que isso também não é o suficiente. Nem comigo mesma eu diminuo a pressão. É quando mais me frustro sabe? Críticas alheias nem me abalam tanto quanto a que eu me faço quando essas pessoas terminam de falar. Eu reconheço o que fiz de errado e peço desculpas, mas quando sou eu comigo mesma, ahhh... aí o bicho pega. É uma briga imensa dentro de mim que dura mais do que o final de O Senhor dos Anéis III. Você aplaude, levanta, mas o filme reinicia, reinicia e reinicia...

Disse que as piores brigas são as minhas comigo mesma. Mas, a verdade é que as mais podres são as que envolviam meus amigos, namorados, futuros quase namorados... Já briguei porque não me carinhou no cinema, por causa de uma palavra, porque elogiou uma freira, porque não me deixou falar primeiro minha “grande notícia”, e a maaaaais mais de todas: porque não quis ficar comigo.

Esse é meu problema. Minhas razões pareciam completamente corretas até eu parar pra pensar nelas. Mas, geralmente, quando eu fazia isso, já era tão tarde, mas tão tarde, que a vergonha já tinha tido um upgrade e sido atualizada para a versão arrependimento 2.0, que ocupava todo o HD da minha mente perturbada de “C:podia não ter feito isso”.

Dizem que é melhor se arrepender do que fez do que se arrepender do que não fez, mas eu prefiro pensar que é melhor não se arrepender. Fez, fez. A merda tá feita. Lida com as suas conseqüências agora, de forma responsável e adulta. E se desculpando quando preciso/possível. Na verdade, agora, eu prefiro pensar bastante é antes de fazer. Sabe, dar aqueeela respirada, olhar em volta, pensar na caminhada até aqui e redirecionar algumas reações. Por isso este texto está no passado e não no presente.

Muitos podem pensar: que texto íntimo... ela não escreveria essas coisas antigamente. Pois é, eu não faria muitas coisas antigamente. Mas agora eu faço. E isso, pra mim, é sinal de que agora reconheço o problema e quero resolvê-lo. Quero mudar essas coisas em mim. Se isso é bom ou ruim, fica a critério de quem lê. E, citando Camila de novo, se não gostou do que leu, não lê. Simples assim. Vai ver este é só mais um desses textos meio sem pé nem cabeça que eu às vezes sinto vergonha de ter escrito. São coisas que acontecem...

 



Escrito por Joceline Gomes às 16h37
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Como assim?

Lista de frases estranhas faz a gente viajar nas interpretações...

Existe uma série de frases estranhas espalhadas pela cidade e ninguém percebe. Não vou ser pretensiosa, vai ver alguém percebe, mas acredito que ninguém parou pra escrever sobre isso. Tá, vai ver parou, mas não aqui no meu blog (got ya!). Logo, eu fiz uma lista (homenagem a Laura Maria) com o top mais de frases sem noção espalhadas por Brasília e outras Cidades Satélites do Distrito Federal (pra quem não sabe o que é isso, eu explico em um parênteses nesse texto aqui).

Mas eu não posso fazer um top 10 sem explicar o critério de seleção primeiro né? Aliás, meu top 10 não tem 10 frases. São apenas oito. Outro diferencial que precisava ser explicado. As frases vão do nível “engraçadinha, vai?” até “como assim, véi?”, de um a oito, sendo 1 a mais simples, mais vista e mais comum, que deve haver em muitos outros lugares por aí, e 8 a mais tosca na minha opinião. Inclui placas de lojas, prestadores de serviço e até chamada de jornal (chamada é aquele quadradinho que fala o que você vai encontrar dentro do jornal e em qual página. Não é a manchete, que é a grandona e geralmente sensacionalista pra você comprar o jornal. Ah, vocês entenderam. Se não, vai no Wikipédia). Tá, chega de falação, vamos lá.

1) Jogue o lixo no lixo. Siga esse raciocínio e o Brasil será o grande depósito de lixo que a Inglaterra já pensa que somos. Visualize: se é pra jogar o lixo no lixo, onde tiver lixo eu posso jogar lixo. Logo, terrenos baldios cheios de lixo, podem receber mais lixo porque o lugar do lixo é no lixo. Concorda? “Lixo na lixeira” resolve melhor essa ambigüidade.

2) Proibida a entrada de pessoas estranhas. Essa é a mais polêmica pra mim. Tá, eu sei, daria no mesmo se dissessem “pessoas não autorizadas”. É o mesmo exemplo do lixo na lixeira. Mas esse aqui, particularmente, me faz rir, porque eu geralmente vejo essa placa em hospitais públicos. Local onde, geralmente, a maioria das pessoas são de estranhas pra baixo. Mas aí caímos no relativismo da questão: o que são pessoas estranhas? São feias? Com dentes a menos? Com parafuso a menos? Com parafuso a mais? Com comportamento fora do padrão? Que se veste mal? O que define uma pessoa estranha? A série Os Normais já fez piada com isso. A mesma que você deve estar imaginando agora. E aí, você entra quando vê essa placa ou não?

3) Para sua segurança, esta estação possui câmeras que filmam 24h por dia. Ok, me respondam uma coisa: filmar já te tirou de um assalto? Filmar já consertou elevador? Filmar já evitou alguma morte? Então, como filmar pode deixar um ambiente mais seguro, gente?? Ok, tem criminosos que podem ficar intimidados com o fato de serem filmados e posteriormente reconhecidos, mas já existem máscaras, roupas com capuz e afins, sabia? Um ambiente seguro se faz de outra forma, e sequer precisa ter câmeras. Se não, espalhar várias câmeras pela cidade resolvia o nosso problema. Ah, é verdade, já fizeram isso... e resolveu?

4) Pare de fumar – tecnologia a laser. Tá certo que tem umas dependências que são mais fortes e precisam de um tratamento intenso e tal, mas... laser?? Como que um laser pode ajudar uma pessoa a parar de fumar? Se eu estiver apenas sendo ignorante aqui e alguém souber como isso funciona, por favor, deixe seu comentário, mas eu realmente viajei quando li essa. O adesivo, tudo bem. Talvez injeções... mas laser?? Respondam-me como.

5) A luz do corpo são os olhos. Você já viu essa frase de outro jeito também, não já? “Os olhos são a janela da alma”. É clichê mas é compreensível. Agora, “a luz do corpo são os olhos”??? Como assim??? Essa frase tava num grafite e foi atribuída a Marcos, ou Mateus, não lembro. Era como se fosse uma passagem da bíblia sabe? Acho que não podia brincar com essas coisas, mas que a frase é estranha, isso é. Ela não entraria na sala com a placa número 2. Quem tiver uma teoria pra explicar essa frase aqui também, será muito bem vinda.

6) Fotos de casamentos – Marcelo B., fotógrafo, álbuns no estilo fotojornalístico. Veja que homem de visão! Que mente inovadora! O cara já se intitulava jornalista antes mesmo de cair o diploma! Isso é que é visão de futuro, tino para os negócios! Como seria um álbum de casamento no estilo fotojornalístico? Quase eu entrei no prédio pra saber... Não tem aquelas fotos preto e branco com o bouquet em vermelho? Ou os noivos segurando o cortador de bolo e olhando pra câmera com sorrisos artificiais? Já sei! No lugar dessas, teria uma foto do pajem contra a luz, de perfil (crianças não podem ser identificadas sem a autorização dos pais em um jornal), com a legenda: “eu trouxe as alianças porque minha mãe me obrigou, meu sonho era estar estudando”. Ou ainda uma foto da noiva deitada num divã a la Ilha de Caras, no salão de beleza, com a legenda: “Gorete revela: sempre quis casar de branco, mas não sou mais virgem”. Isso se for um “fotojornalista” formado pela escola “Sônia Abraão”. Se for da Globo vai ser assim: “Casamento terá autoridades na primeira fila. O Presidente Lula não estará presente pois está viajando, gastando verba dos cofres públicos”. Se for da Record é assim: “Estamos aqui com a Gorete, e ela está entrando no carro que vai levá-la à igreja, vamos entrar no carro com ela? Vamos lá. O cinegrafista está entrando agora... O carro é bonito... muito legal... Vamos fazer o percurso que a noiva vai fazer... vamos lá...” E nisso vão-se dez minutos de matéria... Fotos de casamento... más lembranças... acho que eu fiz fotos em estilo fotojornalístico no casamento da minha tia. Crianças correndo, família reunida, uma garagem como salão improvisado... Vocês lembram disso né? Se não, clique aqui.

7) Entrada e saída de inquilinos. Não basta você pagar aluguel, as pessoas precisam saber que você paga aluguel. Gente, essa placa é enorme, e está numa rua super movimentada e estreita que leva de uma cidade satélite a outra. Aliás, a porta que tem essa placa também é estreita. E pequena. Uma porta normal. O que torna ainda mais difícil entender o motivo da placa estar ali. “Entrada e saída de automóveis” é compreensível. Às vezes as pessoas estacionam e fica difícil outro carro sair. Mas inquilinos?? O que pode acontecer? As pessoas ficarem paradas em frente à porta e os outros não conseguirem sair? Ahhhh, já sei, tava rolando um boato que era um bordel ou uma boca de fumo, e o proprietário quis mostrar que seus imóveis são alugados para pessoas corretas e direitas e que pagam em dia. Logo, em nome de sua honra, resolveu mostrar pra esse “povinho” que passa de ônibus na sua porta, que são inquilinos que entram e saem toda hora, e não viciados ou prostitutas. Tá, essa é a minha teoria. Mais alguém quer brincar de adivinhar?

8) Acabou. Madonna não tem mais Jesus no coração. (risos histéricos!) Calma gente, a Cabala não é do capiroto e a Madonna não fez pacto com o mal como a Xuxa (lenda urbana, tô só repassando a informação como Gugu me ensinou). Acontece que ela terminou com o namorado, Jesus Luz. (fala agora “aaaahhhh táaaa”) Vi essa pérola hoje como chamada de uma revista de fofoca que tem novelas como tema principal. É engraçado. Não assisto novela. Mas assisto muito seriado. E se alguém me conta o que vai acontecer, eu sou capaz de dar um chute na canela. Mas parece que quem assiste novela ou joga RPG em videogame gosta de saber o que vai acontecer. Qual a graça?? Ficar narrando pra Gorete, ou zerar o jogo antes do seu amigo que não comprou a revista? E a emoção? E a aventura? Onde ficam? Ichi, mudei completamente de assunto né? Mas então, fala se essa frase não é, no mínimo, engraçada? Lembra aquela do Michael Jackson né? Ai ai... vou gostar de ver as capas de jornais e revistas daqui a dez anos... Vai ser tão mais fácil viver com tanto humor. Ainda bem que caiu o diploma. Só assim seremos ainda mais agraciados com pérolas como essas...



Escrito por Joceline Gomes às 23h06
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Breakfast at Zara’s

Não sou Bonequinha de Luxo, nem Audrey Hepburn. Fazer o quê?

 Sabe, sou uma grande fã de Sex and the City. O seriado sobre um quarteto de amigas ricas e poderosas em Nova York mexe com o imaginário das mulheres em algum momento. Mas tem uma coisa que realmente não me “apetece”. Não sou fã de liquidações, compras, sapatos, muito menos salto alto. Porém, como falei, essas coisas mexem com o seu imaginário. Dá uma vontade de ser colunista, só escrever sobre minha própria vida, ganhar muito dinheiro e gastar em coisas de grife. Mas, como pude confirmar ontem, isso não é pra mim.

Vi um anúncio no Twitter (sim, estou lá) que dizia: a Zara tá em liquidação!!! (com muitas exclamações). Já ouvi falar dessa liquidação da Zara em outros momentos. Parece um grande acontecimento anual, sabe? Como a São Silvestre ou o Carnaval. Tá, não foi uma boa comparação, mas vocês entenderam. As pessoas chiques ou cool aguardam por esse momento ansiosamente.

Confesso que sempre tive medo de entrar nessa loja. Sim, chamem-me de louca, whatever, mas sei lá, tudo parece tão... esnobe. Os manequins são esnobes, as vendedoras são esnobes, a fachada é esnobe. Eu sempre tive essa impressão de que até pra entrar eu precisaria pagar alguma “taxa por utilização desse espaço super chique”, de tão caras que são as peças da vitrine. Ou seja, nada parecia muito convidativo pra mim. Mas resolvi superar essas minhas barreiras e entrar na loja. Liquidação, auto estima baixa, TPM entre moderada e intensa... vamos superar esse medo né? Vamos lá. Beleza... a loja tem um buraco, assim, no meio. As araras de roupas são pelas paredes. Não é aquela zona encontrada na Otoch, que você pode tropeçar numa arara ao desviar-se de outra. Quanto menos pessoas pra circular no ambiente, mais espaço reservado... é a história do nosso país... mas enfim, essa “chiquesa” toda não impediu que houvesse os montinhos “tudo por tantos reais”. Só que os de lá eram assim: “tudo por R$49,40” (o mais barato, só camisetas básicas), “tudo por R$ 99,90”, “tudo por R$179,90”... e assim vai. Outra dimensão pra quem comprava calcinha aos montes na Beth e Lili quando era criança. Enfim, gostei de duas camisetas e peguei quatro calças para experimentar. Parênteses: tenho uma grande dificuldade pra comprar calças. Sempre levo 20 pro provador e termino não gostando de nenhuma. Comprar calças é tarefa pra se fazer sozinha e com bastante tempo livre. Era o caso ontem. Mas...

Tá, chegando ao provador acionaram os alarmes: uma intrusa! Façam-na sentir-se mais constrangida do que ela já está se sentindo! Tá, deixa eu explicar essa piada podre que fiz agora. Aconteceu assim: a vendedora contou as calças, que estavam penduradas no meu braço esquerdo, mas esqueceu de contar as blusas, que eu estava segurando por baixo da pilha de calças. Então ela foi pegar aquela ficha com o número de peças (a deles é medonhamente grande por sinal) e eu disse “tem duas blusas também”. Ela simplesmente pegou a ficha com o número correto de peças, pegou meu braço direito, deixou em formato de arco, e passou as calças todas para esse braço. Sem me perguntar nada, sem alterar a expressão facial ou olhar nos meus olhos. Como se fosse um procedimento padrão que ela e todo mundo que freqüenta a loja já soubesse. Menos eu, que não freqüento a loja. E eu fiquei com aquela cara de “Oxi, pra quê?” Mas ela fez isso com uma doçura e leveza comparáveis apenas ao Schwazennegger em Exterminador do Futuro I. Tanto que o gancho do cabide bateu no meu queixo. Dei aquela risadinha de quem espera ouvir desculpas, mas nada. A atendente de tailleur preto e maquiagem impecável nem se abalou. Deve se achar muito importante porque trabalha numa loja tão importante onde só compra gente importante. Enfim, resolvi não deixar meus hormônios me subirem à cabeça. Afinal, vai que ela também estivesse na TPM?

Fui provar as roupas. Até que estava disposta a pagar caro pra ter uma calça ou uma blusa da Zara, sabe? Mas acontece que nem eram as roupas que não serviram em mim. Sou eu que não sirvo para aquelas roupas. Parecia que eu tinha caído dentro delas por acidente numa queda muito feia e engraçada e todo mundo a minha volta estava rindo enquanto eu me levantava. Ficaram realmente péssimas. Sem contar as vozes nos provadores ao lado: “adorei essa blusa, Emma, ela me dá pescoço”. “Ficou bem em você, mãe, leva ela”. Ju-ro! O nome da filha da mulher sem pescoço era Emma! Rolou um momento “Calma, Joceline, rir agora não”. Sem contar o momento “Será que foi na época das Spice Girls??”

Enfim, tentei tudo. Pra vocês verem meu estado de espírito, aconteceu de eu levar duas calças iguais pensando que eram diferentes. E experimentei as duas. E, óbvio, as duas ficaram péssimas. Coragem pra sair do provador né? Vai que a atendente tá ainda mais “doce” e resolve puxar meu cabelo porque eu não vou levar nada? Mas saí de cabeça erguida, entreguei as roupas e ela... nada. Nem olhar pra mim não olhou. De novo, né? Saí da loja com aquela sensação: era só isso? Só não tem arara em todo lado, nem promoção de três por R$ 10, mas tem a mesma falta de respeito que a maioria das vendedoras de roupas tem, principalmente de grife. Não que eu entenda disso né, mas posso dizer que elas poderiam ter, no mínimo, um pouco mais de gentileza, olhar nos olhos, dar um sorriso, falar um obrigada, qualquer coisa que demonstre alguma humanidade sabe?

Não comprei nada e nem pretendo. Marca por marca, prefiro cortar as etiquetas, como eu faço sempre. Pinica as costas e não serve pra nada mesmo. Roupa é roupa. Quem usa é que atribui estilo ao que veste. Roupa de grife fora do meu estilo, isso sim, é que não serve.



Escrito por Joceline Gomes às 18h44
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